sábado, 31 de março de 2012

Traições II


Only at dusk do eyes really begin to see.
The colours of flowers become lucid and bright
before night extinguishes them: carnations, yellow roses,
meadow-vetch and buttercups.
The wind has died down, and the sky
- the faded, nearly invisible
background of all our comings and goings -
is suddenly here, just above the treetops and pylons,
shining through foliage and above the roof of the house
in all its depth and blueness. Behind the outhouse
Venus appear; to the right of the pole of the well - Jupiter,
once two gods, now two stars.

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There is no God,
there is no director,
there is no conductor.
The world makes itself happen,
the play plays itself,
the orchestra plays itself.
And if the violin drops from somebody´s hand
and their heart stops beating
the man and his death never meet:
there´s nothing behind the glass;
the other side is nothing, is just a mirror
where my own fear regards me
with big eyes.
And behind this fear,
if only you look carefully enough,
there are grass and sunflowers
turning slowly by themselves towards the sun
without a God, a director, a conductor.



Jaan Kaplinski, Selected Poems, Bloodaxe Books, 2011.


Só quando anoitece os olhos realmente começam a ver.
As cores das flores tornam-se lúcidas e brilhantes
antes que a noite as extinga: cravos, rosas amarelas,
ervilhas-do-prado e botões-de-ouro.
O vento esmoreceu, e o céu
- o desbotado, quase invisível
fundo das nossas idas e vindas -
de repente está aqui, mesmo sobre a copa das árvores e dos postes,
brilhando através da folhagem e sobre o telhado da casa
em toda a sua profundidade e melancolia. Por trás do anexo
Vénus aparece; à direita do esteio do poço - Júpiter,
outrora dois deuses, agora duas estrelas.


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Não há um Deus,
não há um encenador,
não há um maestro.
O mundo acontece por si mesmo,
a peça encena-se a si mesma,
a orquestra toca por si mesma.
E se o violino cai da mão de alguém
e o seu coração pára de bater
o homem e a sua morte nunca se encontram:
nada há por trás do vidro,
o outro lado é nada, é apenas um espelho
onde o meu próprio medo olha para mim
com olhos grandes.
E por trás desse medo,
se olhares com o cuidado suficiente,
há relva e girassóis
que giram lentamente sobre si mesmos em direção ao sol
sem um Deus, um encenador, um maestro.


Tradução: Sandra Costa [2012]

quarta-feira, 21 de março de 2012

A vocação dos homens silenciosos III












O que quero dos regressos e dos poemas

é essa circunstância de serem fontes.



Sandra Costa, A vocação dos homens silenciosos, Cosmorama, 2006.

domingo, 11 de março de 2012

Manual da vida breve - VIII

Fotografia de Ana Teixeira


2.


Por detrás da casa onde cresci,
havia uma velha ameixoeira.

Quando os pássaros começam a cantar
entre os telhados, as ameixoeiras têm flores
muito juntas, muito brancas, que nunca
esqueço.

Consta que certas árvores dão frutos.


[Sandra Costa]




quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Da série «Manual da vida breve» - VII


12.

No manual da vida breve, onde os dias
se (des)fazem úteis e o tempo se conta pelos
dedos como dantes se contava a tabuada,
os poetas interrogam-se: que sabem eles
de poesia? Onde param os versos que sopram
para longe o nevoeiro que cega e entontece?

(e se desconhecem que à cor afogueada que
toma a atmosfera depois do sol se pôr se chama
arrebol, por minha vontade ditava-lhes que
ficassem sentados à sombra da vida que se
esconde a observar as morosidades dos bois
antigos nas voltas da nora à espera
do favorecimento das Graças)[1]






[1] Poema escrito sobre este texto de José Rentes de Carvalho.



Da série «Manual da vida breve» - VI


9.

Sobre o sentido de certas fábulas,
o poeta falava de uma presença dentro do vazio [1].

Se calhar, onde nada existe
passam nuvens e por vezes chove.

Sob essa amplitude das palavras,
das sombras das nuvens que passam,

a terra é cada vez mais o silêncio que resta.






[1] Expressão de Cesare Pavese em Os Cegos in Diálogos com Leucó. Lisboa: Assírio & Alvim, 2007.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Perdidos e achados I

Observações

Janeiro diz-se magnólia porém, este ano, as magnólias abriram por Fevereiro dentro. As magnólias abrem e caem consoante a cor: primeiro as mais claras, no fim as mais escuras. Se não me limitasse a observar poderia construir uma teoria sobre a leveza. As magnólias brancas são tão frágeis quanto a claridade ou a solidão: sobre elas, os dias de sol foram pequenos incêndios. Se tivessem florido em Janeiro, as magnólias teriam caído todas sem que as suas folhas verdinhas aparecessem – mas Março está a terminar e as magnólias rosa-claro estão cheias de folhas e ainda em flor. As magnólias roxas abriram em Março e há uma que tem um ninho. O cheiro das magnólias é tão suave que temos sempre de nos erguer sobre as pontas dos pés para encontrarmos o desequilíbrio. Se não me limitasse a observar eu escrevia que gosto muito de magnólias. Como de coisas frágeis, coisas de partir, como de coisas efémeras mas que nos devolvem o hábito de acreditar. Na claridade ou na escuridão. Se não me limitasse a observar eu agora vinha pedir um poema novo de Tonino Guerra que nunca deve ter escrito sobre magnólias. Ter-se-á ele também limitado a observar? Na claridade ou na escuridão.

[Sandra Costa, no idos de 2005]

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Traições I

Tattoo

The light is like a spider.

It crawls over the water.
It crawls over the edges of the snow.
It crawls under your eyelids
And spreads its webs there--
Its two webs.

The webs of your eyes

Are fastened
To the flesh and bones of you
As to rafters or grass.

There are filaments of your eyes

On the surface of the water
And in the edges of the snow.

Wallace Stevens





Tatuagem

A luz é como uma aranha.

Move-se sobre a água.
Move-se sobre os contornos da neve.
Move-se sob as tuas pálpebras
E aí espalha as suas teias—
As suas duas teias.

As teias dos teus olhos

Estão presas
À tua carne e aos teus ossos
Como em traves ou na relva.

Há filamentos dos teus olhos

Na superfície da água
E nos contornos da neve.

Tradução: Sandra Costa (2005)