sábado, 22 de dezembro de 2012

Calendário do Advento 2012 - Dia sete

Poema de Natal


E tu atravessarias a penumbra que só existe
entre as árvores que se enchem de milagres
esquecidos.

Atravessarias sacudindo o joio, desfazendo
os nós que separam o sagrado da celebração
dos dias, extinguindo os relâmpagos das
confidências.

E quando a noite fosse só noite, atravessarias
aqueles ramos trémulos repetindo uma oração
inacabada, porque só vacilando é que Deus
se aproxima dos homens.

Dezembro de 2012

[Sandra Costa]

(dedicado à Joana)

Calendário do Advento 2012 - Dia seis

Poema de Natal


As estátuas foram as primeiras a partir.

Yannis Ritsos


Nenhuma vela ficou acesa no poema. Cobriram-se
de sombras as canções da época e os cântaros
da chuva apagaram-se como se não sobrassem
invernos, musgos, beirais.
Se não houver mais nada,
demoradamente espera            (mas não lamentes
os dedos onde já não pulsa o coração). Abre a
morte como abres uma laranja e devolve à terra  
o ofício de interromper as promessas e as ruínas 
das palavras que ficaram por dizer.

Depois de tudo isto procura por debaixo da porta
a falta que faz uma luz sobre tão desamparada escuridão

Dezembro de 2012

[Sandra Costa]

(dedicado à Inês Dias)

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Calendário do Advento 2012 - Dia cinco

Poema de Natal


…triste como um rio, sereno como as pontes…

Ruy Belo

Silêncio sobre o silêncio. De asa partida
desce as escadas de casa a luz da manhã
e nada se eleva sobre tão misteriosa passagem.
Acumula-se o pó entre um verso que morre
e um poema construído de escombros
e de repente apercebes-te que o musgo dos
telhados é tão só um efeito secundário, quando muito
uma condição necessária, para que um deus
sobreviva aos dias que passam, serenos como os rios,
tristes como as pontes

Afinal onde está esse deus que nasceu?

Dezembro de 2012

[Sandra Costa]

(dedicado à Margarida)

sábado, 15 de dezembro de 2012

Calendário do Advento 2012 - Dia quatro

Poema de Natal

Preparai o caminho do Senhor e endireitai as suas veredas. Toda a ravina será preenchida, todo o monte e colina serão abatidos; os caminhos tortuosos ficarão direitos e os escabrosos tornar-se-ão planos. (Lc 3,4)

Num tempo onde já não há profetas nem
sinais na espessura do arvoredo, onde os velhos
salmos já não estabelecem os limites da terra e os
tumultos são casulos de silêncio, arrepende-te,

escreve um poema e persegue as veredas até que
fiquem planas, não fiques à espera que sequem
os rios impetuosos mas prepara a luz e o sol para que
em ti se preencham todos os lugares impossíveis

Dezembro de 2012

[Sandra Costa]

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Calendário do Advento 2012 - Dia três

Poema de Natal


Nas paredes do Convento de São Marcos,
em Florença, por duas vezes Fra Angelico
anunciou o impossível.

No cima das escadas, algures no corredor norte,
as asas do anjo desdobram-se em cores
abrindo o silêncio num claustro de colunas
coríntias – a mulher carregando uma sombra
que deflagra, Gabriel do outro lado do mundo
tão perto de uma rendição.

Na cela n.º 3, entra. Não digas nada. Visita-a 
como se desde sempre também estivesses à espera.

Dezembro de 2012

[Sandra Costa]

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Calendário do Advento 2012 - Dia dois

Poema de Natal

Os que acreditam que a luz da manhã
coincide com a eternidade das árvores, com o que
sobra da solidão nas paisagens inacabadas

Os que acreditam que a lucidez
se desfaz na primeira palavra que toca os despojos
da infância ou o rasto inexistente das confidências

Os que acreditam que nenhum pormenor se apaga
quando alucinas e sobrevives às tardes de Inverno
que existem nas canções de Tom Waits

Os que acreditam que o amor é um nome precedido
por um regresso

Os que acreditam                  

desdobram os poemas como se lá dentro 
houvesse ainda um segredo por desvendar

Dezembro de 2012

[Sandra Costa]

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Calendário do Advento 2012 - Dia um

Poema de Natal


Enganam-se os que pensam que só nascemos uma vez.

José Tolentino Mendonça,
in Diário de Notícias (Madeira), 12.12.10


A forma como começo há-de ser tão leve como o silêncio:
nada será dito como se fosse uma repetição, nada acontecerá
como se fosse a primeira vez. Dentro das palavras
apenas o perfume de uma trégua e em cada gesto
o estilhaço de pequenas flores.

A forma como começo há-de ser tão leve como o silêncio:
tão leve como a distância que existe entre uma estrela
e o primeiro indício que tudo mudou.

Dezembro de 2012

[Sandra Costa]



(dedicado à Helena Araújo)