domingo, 23 de dezembro de 2012

Calendário do Advento 2012 - Dia onze

Poema de Natal



É possível que o mundo ainda tenha à sua frente
e atrás de si primitivas linguagens, dois ou três astros
por descobrir, milagres inacabados e uma melodia
escondida no diafragma.

É possível que o mundo ainda gravite em torno
da floração das mãos, se desdobre em janelas iluminadas
contra a noite fria e regresse à revelação dos segredos
junto ao parapeito onde os anjos espreitam.

É possível que o mundo ainda cintile, ou entendendo
as palavras de Rilke como uma liturgia, é possível
que o mundo ainda seja como a última pequena estrela 
é para noite.

Dezembro de 2012

[Sandra Costa]

Calendário do Advento 2012 - Dia dez

Poema de Natal


Aonde vais, meu coração vazio?

Camilo Pessanha


Não sei como dizer-te que é uma luminosa expedição
preparar o caminho para o inverno: cobres os pulsos
de pressentimentos e estremeces sempre que uma
sombra se concretiza entre duas árvores; soam mais
espessos que a chuva os poemas que não deixam
vestígios; em cada imperfeição espelhada no frio
miríades de imagens abrem como chamas.

Não sei como dizer-te que é entre os dedos
enregelados de Dezembro que florescem os milagres 
bafejados pela vertigem terna de um coração vazio.

Dezembro de 2012

[Sandra Costa]

Calendário do Advento 2012 - Dia nove

Poema de Natal


Será que Deus não consegue compreender a linguagem dos artesãos?

Herberto Hélder


Senta-te sobre as pedras a conversar com Deus. Vidro.
Música. Mel. Cantaria. Sopra o vidro de uma vez só,
deixa que a forma se despegue do medo. Não pares
de debruar as ânforas que ficaram por encher, desata
com as mãos a melodia a que se agarra o silêncio.
Uma espécie de auréola debruça-se sobre as flores
e com a polpa dos dedos deixa escorrer semelhante
ofício sobre os favos da sede. Por fim, lavra o caminho
com a substância das estrelas mesmo que utilizes
o martelo e entre os batimentos demora-te nos pássaros
que pousam sobre as romãs. Bago a bago desfaz
a película que protege os antigos mandamentos
e devolve-os em versos para que assim se construa
uma linguagem terna e comum.

Dezembro de 2012

[Sandra Costa]

sábado, 22 de dezembro de 2012

Calendário do Advento 2012 - Dia oito

Poema de Natal


Alguém queria saber como se transformam
as palavras em dedos que movem o mundo,
como se acrescenta eternidade à inclinação
que as escadas têm na infância, como levedam
os poemas quando os frutos são colhidos
pelas tempestades.

Alguém queria saber como oxida o silêncio
quando observas aquela noite diante de um lugar
fechado onde tudo começa a acontecer.

Dezembro de 2012

[Sandra Costa]

Calendário do Advento 2012 - Dia sete

Poema de Natal


E tu atravessarias a penumbra que só existe
entre as árvores que se enchem de milagres
esquecidos.

Atravessarias sacudindo o joio, desfazendo
os nós que separam o sagrado da celebração
dos dias, extinguindo os relâmpagos das
confidências.

E quando a noite fosse só noite, atravessarias
aqueles ramos trémulos repetindo uma oração
inacabada, porque só vacilando é que Deus
se aproxima dos homens.

Dezembro de 2012

[Sandra Costa]

(dedicado à Joana)

Calendário do Advento 2012 - Dia seis

Poema de Natal


As estátuas foram as primeiras a partir.

Yannis Ritsos


Nenhuma vela ficou acesa no poema. Cobriram-se
de sombras as canções da época e os cântaros
da chuva apagaram-se como se não sobrassem
invernos, musgos, beirais.
Se não houver mais nada,
demoradamente espera            (mas não lamentes
os dedos onde já não pulsa o coração). Abre a
morte como abres uma laranja e devolve à terra  
o ofício de interromper as promessas e as ruínas 
das palavras que ficaram por dizer.

Depois de tudo isto procura por debaixo da porta
a falta que faz uma luz sobre tão desamparada escuridão

Dezembro de 2012

[Sandra Costa]

(dedicado à Inês Dias)

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Calendário do Advento 2012 - Dia cinco

Poema de Natal


…triste como um rio, sereno como as pontes…

Ruy Belo

Silêncio sobre o silêncio. De asa partida
desce as escadas de casa a luz da manhã
e nada se eleva sobre tão misteriosa passagem.
Acumula-se o pó entre um verso que morre
e um poema construído de escombros
e de repente apercebes-te que o musgo dos
telhados é tão só um efeito secundário, quando muito
uma condição necessária, para que um deus
sobreviva aos dias que passam, serenos como os rios,
tristes como as pontes

Afinal onde está esse deus que nasceu?

Dezembro de 2012

[Sandra Costa]

(dedicado à Margarida)