sábado, 23 de março de 2013

Still Life #2


















Kristoffer Albrecht, 2009



Still Life #2

Enquanto durar o poema, no gargalo
da garrafa a Primavera permanece intacta.
O ramo da cerejeira suspenso num
desfiladeiro de vidro cria duas margens
de água mas ali não há milagres e a
transparência que resiste dobrar-se-á
em breve num lugar estagnado,
talvez sagrado, onde a natureza morre
e um poema acaba.

[Sandra Costa]

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Still Life #1

Misha Burlatsky, Balance

Still Life #1

O elemento que sobressai é o equilíbrio.
E no entanto, as sombras estão dispostas
como se não fossem sombras mas apenas
o tempo que resta quando entre a palavra
e o esquecimento se instala a penumbra
ou a solidão. Quanto à mesa de madeira,
quase perfeita, é um lugar ligeiramente
à esquerda para que da inclinação da flor
sobrasse uma margem de inquietude sobre
essa vida que não existe.

[Sandra Costa]


terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Calendário do Advento 2012 - Dia catorze (como se fosse dia vinte e cinco)

Poema de Natal





Pois o meu sentimento de felicidade inominável virá mais facilmente de uma 
fogueira de pastores distante e solitária do que da contemplação do céu estrelado

Hugo von Hofmannsthal

Uma mulher junto à janela emoldurada pela neve,
como num postal antigo, observando não se sabe
que estação onde se cumpre a improbabilidade dos dias.

A alusão a uma fogueira de pastores distante e solitária
preterindo-se a cartografia anunciada a um doce e imprevisto
silêncio que corrói cada verso que fica por escrever.

A acústica do que é eterno e inominável, e por isso mesmo
imperfeito, como o único vestígio de que é possível
a floração da luz como presença do sagrado.

Dezembro de 2012

[Sandra Costa]

Calendário do Advento 2012 - Dia treze

Poema de Natal


                                                            Escondo-me atrás de coisas simples, 
                                                            para que me encontres

                                                            Yannis Ritsos


Esta podia ser uma frase de amor ou de um qualquer
deus dirigida aos homens incrédulos, o que no final
de contas é a mesma coisa pois o que as palavras
dizem é que em cada um de nós persiste um desejo
de ir para além da solidão, de captar esses pequenos
trechos de mundo que desde a infância, ou do primeiro
beijo, deixamos crescer por entre os silêncios que nos
comovem.

Dezembro de 2012

[Sandra Costa]

Calendário do Advento 2012 - Dia doze

Poema de Natal

                                                                                  a laranja, (…)
                                                                                  como interrompe o mundo
                                                                           
                                                                                  Herberto Hélder

Agora que o inverno chegou e os dias explicam-se
com sílabas menos breves e um pouco mais de luz a
interromper o mundo; agora que enches a casa com o
fogo dos frutos e as mãos com o cheiro ainda invisível
do sol; agora que colhes o que o frio amadureceu como
se essa fosse a ordem natural das coisas

Agora renovam-se os atalhos até ao centro da terra,
até ao primeiro elemento que se celebra em nós
quando nos aproximamos da laranjeira como se
a sua sombra, ainda coberta de nuvens, fosse o
que de mais semelhante existe àquele advento
em que não crês.

Dezembro de 2012

[Sandra Costa]

domingo, 23 de dezembro de 2012

Calendário do Advento 2012 - Dia onze

Poema de Natal



É possível que o mundo ainda tenha à sua frente
e atrás de si primitivas linguagens, dois ou três astros
por descobrir, milagres inacabados e uma melodia
escondida no diafragma.

É possível que o mundo ainda gravite em torno
da floração das mãos, se desdobre em janelas iluminadas
contra a noite fria e regresse à revelação dos segredos
junto ao parapeito onde os anjos espreitam.

É possível que o mundo ainda cintile, ou entendendo
as palavras de Rilke como uma liturgia, é possível
que o mundo ainda seja como a última pequena estrela 
é para noite.

Dezembro de 2012

[Sandra Costa]

Calendário do Advento 2012 - Dia dez

Poema de Natal


Aonde vais, meu coração vazio?

Camilo Pessanha


Não sei como dizer-te que é uma luminosa expedição
preparar o caminho para o inverno: cobres os pulsos
de pressentimentos e estremeces sempre que uma
sombra se concretiza entre duas árvores; soam mais
espessos que a chuva os poemas que não deixam
vestígios; em cada imperfeição espelhada no frio
miríades de imagens abrem como chamas.

Não sei como dizer-te que é entre os dedos
enregelados de Dezembro que florescem os milagres 
bafejados pela vertigem terna de um coração vazio.

Dezembro de 2012

[Sandra Costa]