sábado, 9 de novembro de 2013

Manual da Vida Breve - XVI

18.


É Novembro. Enquanto alguns pássaros
pousam sobre os fios que pautam o silêncio,
inclinando um pouco mais a tarde, outros
partem e passam em formação sobre
os prédios da cidade, tão distantes

quanto evidentes, e uma parte de mim
reconhece ali um vazio,

um lugar onde suster o coração.

[Sandra Costa]

sábado, 2 de novembro de 2013

Manual da Vida Breve - XV

10.

A forma como se começa.
                   
A luz na distância como se a espera
fosse uma sombra que não pousa.

O que envolve a casa são as imagens
que desaparecem como vazios ficam
os nomes. Porque o que ainda se desenrola
é o reconhecimento de que nada mais há
a enumerar. Fechas as janelas. As noites
descem devagar, tão devagar que desconheces
o medo que fulmina. Desfazes-te dos mantos
e das palavras. Cumpre-se a morte. Tudo
permanece igual à forma como se começa.

[Sandra Costa]

domingo, 22 de setembro de 2013

Manual da Vida Breve - XIV

David H. Gibson, Churchyard Grapes, Betlan, Spain | 1998

17.



Não te espantas com as uvas ainda 
por colher sobre o velho portão da casa.

É Outono e há um cheiro doce que se 
sobrepõe ao pó acumulado entre as pedras
do muro – em redor, os campos de milho 
já foram devastados pelas máquinas e da
terra e do que resta dos caules vem um 
outro cheiro que te recorda a infância – 

Junto ao velho portão da casa hesitas
entre tocares as sombras ou a ferrugem

– o medo é a tua mão sobre as coisas
ou o tempo que tomba com as colheitas –


[Sandra Costa]

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Manual da Vida Breve - XIII

16.


Ontem, por entre o ofício da solidão
dos campos de milho, a luz mudou
e começou Setembro [1].

Talvez agora cesse a espessura
de mistério que rodeia a penúltima
casa da aldeia e sobre aquelas ruínas
que servem de abrigo a umas quantas
árvores um pássaro levante voo
para que no último verso se revele que

a ausência não é mais do que uma vigília.

[Sandra Costa]



[1] «Mudou a luz: isto é Setembro» (Carlos Marzal).



sábado, 7 de setembro de 2013

Nenhuma Flor - I


Repercutem os nomes abatidos
a luz atravessada do avesso
as películas que ficam do absoluto dos poemas
o ofício da vigília dentro do sono mais profundo

- designações trémulas do sagrado
ou um par de asas a corromper o silêncio –

Sandra Costa (poemas), Paulo Gaspar Ferreira (fotografias). Nenhuma flor. Oito imagens e o dizer dos lábios. In-libris, 2004.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Manual da vida breve XII

15.


Sobre a ponta do cavaleiro, ergue-se o farol
cuja torre se encontra do lado de terra
e a entrada está virada para o mar, como se
adivinhasse o construtor a vertigem que se
acende e se apaga naquele ofício onde quase
tudo se assemelha à solidão e que a cada três
sinais de luz branca de novo a morte se afasta
mas regressa como as constelações quando
o céu se dissipa de sombras.

[Sandra Costa]


sábado, 17 de agosto de 2013

Manual da Vida Breve - XI



14.


Para o Vítor.

Na alameda dos plátanos, em 1925 descrita
como a avenida directa ao mar, ergue-se a Vila Gladys
com o seu tom rosa embaçado, os muros bordejados
a branco e da mesma cor todos os lugares que
ali servem de cadência e de passagem: o portão tripartido,
os frisos neoclássicos das varandas e as portadas de
madeira das janelas.

Quem por ali passa nada sabe da história daquela
casa – se o salão de bilhar no rés-do-chão ainda existe,
quantas vezes Gladys se terá recordado do som do
seu violino sob a luz dedilhada da araucária, porque
terão sido cortadas as antigas palmeiras do jardim
da entrada e que (des)amores ainda poderão ser
colhidos na luz nocturna do lago.

Por último, muitos anos depois deste poema, restará
apenas o que ficou inscrito no tronco dos plátanos
como uma memória de infância: um vislumbre
da Riviera na penumbra da luz de Verão de Francelos
e que em Setembro, antecipando regressos, enrolavas
uma vez mais como se tudo aquilo fosse somente
uma planta de arquitectura.

[Sandra Costa]