segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Traições VI - Parte II













[...] La meraviglia e l’emozione mi arrivano di colpo se mi trovo
davanti a costruzioni in rovina. Ho bisogno di sentire
la presenza di spessori, di incrostazioni create
dalla pioggia, dal sole e delle pietre che si
smarrivano, così capisco che la natura dà un suo
contributo fondamentale all’architettura regalando
l’impronta del tempo e della morte. I palazzi gotici e del
rinascimento così ben conservati chiedono soltanto la mia
ammirazione e invece i monumenti in rovina, oltre all’ammirazione
vogliono commozione e affetto per la loro agonia umana.
In più devo confessarvi che entrano nella memoria
le conversazioni silenziose con oggetti e
presenze mute. Quei colloqui segreti
che ci riempiono di verità nascoste.
Per queste mie voglie di borghi abbandonati
molto è dipeso anche da un orto che confinava
col cortile di casa mia in via Verdi. Quattro metri
di rete metallica prima della lunga capanna sbilenca dove
stava ammucchiato il carbone che mio padre vendeva pesandolo
con una bilancia appesa al soffitto. Oltre i quattro metri
di rete metallica c’era l’erba verde del campo Meloti,
chiuso sulla destra dall’orto della famiglia
Moroni. Allora c’era grande amicizia
tra me e Federico, il loro figlio più grande.
Quando pioveva stavamo nella sua stalla per sentire
che la pioggia batteva sulla foglia del fico e de galline lasciavano
orme sul terreno umido e facevano pensare a scritture
giapponesi. [...]

GUERRA, Tonino – Una foglia contro i fulmini. Santarcangelo di Romagna: Maggioli Editore, 2006, p. 9 – 13. 


[...] A maravilha e a emoção apoderam-se de mim de um golpe se me encontro
perante construções em ruína. Preciso de sentir
a presença das espessuras, das incrustações criadas
pela chuva, pelo sol e pelas pedras que se
extraviam, pois assim compreendo que a natureza dá um
contributo fundamental à arquitectura presenteando-a
com a marca do tempo e da morte. Os palácios góticos e do
renascimento tão bem conservados pedem apenas a minha
admiração enquanto  os monumentos em ruína, para além de admiração,
desejam comoção e afecto pela sua agonia humana.
Mais, devo confessar que se entranham na memória
as conversações silenciosas com objectos e
presenças mudas. Aqueles diálogos secretos
que se enchem de verdades escondidas.
Estes meus desejos por aldeias abandonadas
dependiam muito também de uma horta que confinava
com o pátio da minha casa na via Verdi. Quatro metros
de rede metálica antes da grande cabana desequilibrada onde
estava amontoado o carvão que o meu pai vendia pesando-o
com uma balança suspensa do tecto. Adiante dos quatro metros
de rede metálica ficava a erva verde do campo Meloti,
fechado sobre a direita da horta da família
Moroni. Naquele tempo existia uma grande amizade
entre mim e Federico, o filho deles mais velho.
Quando chovia encontrávamo-nos no seu curral para sentir
como a chuva batia sobre as folhas da figueira e as galinhas deixavam
pegadas sobre o terreno húmido e nos faziam pensar na caligrafia
japonesa. [...]


GUERRA, Tonino – Una foglia contro i fulmini. Santarcangelo di Romagna: Maggioli Editore, 2006, p. 9 – 13. [Tradução de Sandra Costa e revisão de Andrea Ragusa]


sábado, 22 de outubro de 2016

Traição VI - Parte I

LA NECESSITÀ DI ISOLARMI è cominciata quando
ho capito che le mie riflessioni navigavano in
un vuoto polveroso della mente.
Dovevo staccarmi da tutto e toccare
con le mani e coi pensieri la mia infanzia.
Ritrovare il gusto che avevo da ragazzo quando mi facevo
cadere la pioggia in bocca. Avevo bisogno di
tenere una foglia in mano e seguire un
odore di erbe selvatiche e i cigolii
delle docce arrugginite che trascinavano l’acqua
lungo i muri dei cortili. Quando sono arrivato nella
zona delle piume, territorio appartato dell’Appennino già
toscano, sono rimasto sorpreso perché mi è successo quello che era
capitato a una maestra calabrese. La Signora da anni voleva
comprare una casa sulle colline romagnole ma non riusciva mai a decidere
l’acquisto perché c’era sempre qualcosa che
la deludeva. Un giorno, a pochi passi
dalla Repubblica di San Marino,
scoprì una casa antica accanto a un cimitero
abbandonato e se ne innamorò perdutamente. Volle
comprarla subito e sentì essere arrivata a possedere un
mondo che aspettava di essere abitato da lei.
Un anno dopo un parente le inviò una
rivista calabrese dove era fotografata
la vecchia abitazione dei suoi antenati con
un cimitero accanto abbandonato. Vide subito
che la casa acquistata era identica a quella dove c’erano
le origini della sua famiglia. I ruderi e le casupole
malandate che avevo adesso davanti
agli occhi mi
hanno fatto ricordare che mio fratello mi aveva portato alcune volte
in quella zona per comprare il carbone che mio padre vendeva
nel vecchio magazzino di Santarcangelo.
Ormai ho una convinzione definitiva: ho bisogno
di strade non asfaltate, terreni fatti di crosta secca dove
una nuvola d’acqua fa crescere i fiori sotto i tuoi
occhi, che súbito appassiscono. [...]

GUERRA, Tonino – Una foglia contro i fulmini. Santarcangelo di Romagna: Maggioli Editore, 2006, p. 9 – 13. 


A NECESSIDADE DE ME ISOLAR começou
quando percebi que os meus  pensamentos navegavam
num vazio empoeirado da mente.
Tinha de me despegar de tudo e tocar
com a mão e com os pensamentos a minha infância.
Reencontrar o gosto que tinha em rapaz quando deixava
cair a chuva na boca. Tinha necessidade de
ter uma folha na mão e seguir um
odor de ervas selvagens e os rangidos
das caleiras enferrujadas que arrastavam a água
ao longo dos muros dos quintais. Quando cheguei à
zona das plumas, território isolado dos Apeninos já
toscano, fiquei surpreso porque aconteceu-me o mesmo que
sucedeu a uma professora da Calábria. Há anos que a Senhora queria
comprar uma casa nas colinas romagnolas mas nunca mais se conseguia decidir
pela compra porque havia sempre alguma coisa
que a desiludia. Um dia, a poucos passos
da República de S. Marino,
descobriu uma casa antiga ao lado de um cemitério
abandonado pela qual se enamorou perdidamente. Quis
comprá-la de imediato e sentiu que acabava de possuir um
mundo que esperava ser habitado por ela.
Um ano depois um parente enviou-lhe uma
revista da Calábria onde estava fotografada
a velha casa dos seus antepassados com
um cemitério ao lado abandonado. Viu de imediato
que a casa comprada era idêntica àquela de onde vinham
as origens da sua família. As ruínas e os casebres
em mau estado que agora tinha diante
dos meus olhos
fizeram-me recordar que o meu irmão me tinha levado algumas vezes
àquela região para comprar o carvão que o meu pai vendia
no velho armazém de Santarcangelo.
Agora tenho uma convicção definitiva: preciso
de estradas não asfaltadas, terrenos feitos de crosta seca onde
uma nuvem de água faz crescer as flores sob os teus
olhos, que de imediato murcham. [...]


GUERRA, Tonino – Una foglia contro i fulmini. Santarcangelo di Romagna: Maggioli Editore, 2006, p. 9 – 13. [Tradução de Sandra Costa e revisão de Andrea Ragusa]


segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Epigrafia #1

«Consegues ouvir o mar?» perguntou James.
«Esse era o verso de Shakespeare de que Keats mais gostava.»

Iris Murdock, O Mar, O Mar, Relógio d'Água, 2005, p. 449.

Esta é a casa que procuro,

depois de cada estação, entre
as substâncias perenes onde fica
guardado tudo o que é cedo,
sempre que um pormenor tarda em
reinventar a realidade.

Não haverá melhor verso
que identifique esse lugar

onde um dia a vida se assemelha
a este silêncio.

[Sandra Costa]

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Traições V

Two Figures In Dense Violet Night

I had as lief be embraced by the porter at the hotel
As to get no more from the moonlight
Than your moist hand.

Be the voice of night and Florida in my ear.
Use dusky words and dusky images.
Darken your speech.

Speak, even, as if I did not hear you speaking,
But spoke for you perfectly in my thoughts,
Conceiving words,

As the night conceives the sea-sounds in silence,
And out of their droning sibilants makes
A serenade.

Say, puerile, that the buzzards crouch on the ridge-pole
And sleep with one eye watching the stars fall
Below Key West.

Say that the palms are clear in a total blue,
Are clear and are obscure; that it is night;
That the moon shines.

Wallace Stevens, de Harmonium | 1923



Duas figuras numa densa noite violeta 

Tanto me agradava ser abraçado pelo porteiro no hotel
Como nada mais conseguir do luar
Do que a tua mão húmida.

Sê a voz da noite e Florida no meu ouvido.
Usa palavras sombrias e imagens sombrias.
Escurece o teu discurso.

Fala, ainda, como se eu não te tivesse ouvido falar,
Mas te falasse perfeitamente nos meus pensamentos,
Concebendo palavras,

Como a noite concebe os sons do mar em silêncio,
E dos seus zumbidos sibilantes faz
Uma serenata.

Diz, pueril, que os bútios se inclinam sobre as vigas do telhado
E dorme com um olho observando a queda das estrelas
Abaixo de Key West.

Diz que as palmeiras são claras num azul absoluto,
São claras e são obscuras; que é noite;
Que a lua brilha.



Tradução: Sandra Costa (2005)


domingo, 7 de agosto de 2016

Manual da Vida Breve XXIII

25.


Mantém intacto o cansaço.
Não procures o navio que partiu
na espuma que agita as palavras.
Pratica a hesitação, essa forma
de respirar que suspende a eternidade,
sobretudo quando a paisagem
deixou de ser começo,
tornando-se fragmento.

[Sandra Costa]

segunda-feira, 4 de julho de 2016

Manual da Vida Breve XXII

23.
«Se eu escrevesse, […], não haveria na minha escrita
o mais pequeno vestígio de nostalgia.»

João Paulo Sousa, O rosto de Eurídice, Teodolito, 2016.

Se eu escrevesse, as sebes continuariam
a cercar os terrenos aráveis contra a invasão
das tempestades e os estragos não deixariam
de se sentir na quantidade de voos que os
estorninhos fariam pousar sobre o que
além resta da sombra e da luz.

Se eu escrevesse, a morte continuaria
necessária, sem promessas, sem regressos
e os poemas demorariam apenas um
instante, permanecendo as palavras
mas não os significados,

para que aqui não reste
o mais pequeno vestígio de nostalgia.

[Sandra Costa]

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Poema de Natal | Dezembro de 2015


Poema de Natal

DEFESA DE PETER HUCHEL OU CRITÉRIO

Também ao verso é vedado
ser mais leve
que o seu peso

Reiner Kunze, Poemas,
Paisagem Editora, 1984 (Tradução de Luz Videira e Renato Correia).


O critério com que inicias o poema
é o mesmo que se demora nas sombras
magoadas de Dezembro: um sopro rasga
a pulsação do mundo e o que se desfaz
entre os teus dedos é a lenta composição
de uma luz indeterminada que não se cansa
de ser matéria casual mas que, como tudo
o que é errância, jamais se poderá ver. 

[Sandra Costa]