quarta-feira, 16 de maio de 2012

Untitled VII

Norman Parkinson, The Iron Road, 1947
À espera

Uma mulher espera numa pequena estação, em pose cinematográfica. GWR, Great Western Railway, lê-se no banco sobre o qual se senta e cruza as pernas como se aquele momento fosse apenas mais um retrato sobrevivente à guerra. O casaco Aquascutum revela o que encobre, um corpo em falso perfil, enquanto as mãos observam o silêncio, suspenso na trajectória que o tempo percorre entre os pensamentos mais secretos e as circunstâncias que teimas em imaginar.

Em primeiro plano, aquilo que te parece um motociclo, com uma película turva que entorpece os pormenores, e uma bicicleta junto aos anúncios e avisos que ninguém lê. Há também uma janela, talvez em guilhotina, embora o ângulo não seja o melhor para afirmares com certeza absoluta o atributo que, neste caso, a abertura não revela.

Fixas, uma outra vez, o olhar na cobertura que expõe a sombra sobre a mulher que espera na pequena estação ou as sombras na fotografia a preto e branco e percepcionas que ali mora um lugar sensível à luz, um lugar oblíquo que estabelece o contraste entre o que escurece e o que clareia, entre frágeis certezas e as histórias possíveis que só agora consegues capturar, um lugar sem nome, à espera.

Em fuga, quase num ponto, mas em lenta composição, o comboio aproxima-se e o que é real, o que é o amor, começa a quebrar-se.

[Sandra Costa]


Texto publicado no n.º 5 da Revista Flores do Verde Pinho da Escola Secundária de Vilela, número inteiramente dedicado à letra D.