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domingo, 7 de agosto de 2016

Manual da Vida Breve XXIII

25.


Mantém intacto o cansaço.
Não procures o navio que partiu
na espuma que agita as palavras.
Pratica a hesitação, essa forma
de respirar que suspende a eternidade,
sobretudo quando a paisagem
deixou de ser começo,
tornando-se fragmento.

[Sandra Costa]

segunda-feira, 4 de julho de 2016

Manual da Vida Breve XXII

23.
«Se eu escrevesse, […], não haveria na minha escrita
o mais pequeno vestígio de nostalgia.»

João Paulo Sousa, O rosto de Eurídice, Teodolito, 2016.

Se eu escrevesse, as sebes continuariam
a cercar os terrenos aráveis contra a invasão
das tempestades e os estragos não deixariam
de se sentir na quantidade de voos que os
estorninhos fariam pousar sobre o que
além resta da sombra e da luz.

Se eu escrevesse, a morte continuaria
necessária, sem promessas, sem regressos
e os poemas demorariam apenas um
instante, permanecendo as palavras
mas não os significados,

para que aqui não reste
o mais pequeno vestígio de nostalgia.

[Sandra Costa]

domingo, 12 de abril de 2015

Manual da Vida Breve XXI

23.

«Nunca escrevi um poema sobre a morte».
Eis como um verso começa um poema
entre dois sonhos, um real e outro imaginado,
e depois se revela uma casa vazia onde só
o rasto difuso de uma tempestade que nunca
existiu te devolve a certeza de que no fim,
como no começo, o que nos abandona
é essa ilusão de que um dia caminhamos
no dorso do mundo.

[Sandra Costa]

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Manual da Vida Breve XX (Versão em italiano)

22.



E il terzo giorno sulla terraferma
ove l'erbe e le piante darebbero sementi
e gli alberi sarebbero più prossimi ai frutti,
è successo che han potato la magnolia
della mia via e la strada si è ricoperta della
fioritura que non è giunta a illuminare i giorni.

È passata la mattinata ed è giunto il pomeriggio
e un passero si è posato su uno dei pochi 
rami rimasti ad aprire il chiarore
dinanzi al silenzio, intessendo così
la poesia sul retro della creazione.

E certi uomini hanno creduto che tutto ciò
fosse una cosa bella.

[Tradução de Andrea Ragusa, colaborador do blogue Poesia & Lda.]

sábado, 3 de janeiro de 2015

Manual da Vida Breve XX

22.



E ao terceiro dia, sobre a terra firme
onde as ervas e as plantas dariam sementes
e as árvores se aproximariam dos frutos,
aconteceu que podaram a magnólia
da minha rua e o chão ficou coberto da
floração que não chegou a iluminar os dias.

Passou uma manhã e veio a tarde
e um pássaro pousou numa das poucas
hastes que restavam abrindo a claridade
perante o silêncio, assim se urdindo
o poema no reverso da criação.

E certos homens acharam que aquilo
eram coisas boas.

[Sandra Costa]

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Manual da Vida Breve XIX

21.

[para a Joana Manarte]

Dezembro começou como
Agosto terminara: com a tua voz
estendida entre dois rios ou entre dois
mundos, na ténue possibilidade de todos
os dias desaparecerem assim, num porto
antigo ou num poema, nesse equilíbrio
necessário com que pousamos as memórias
no último refúgio dos precipícios.

[Sandra Costa]

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Manual da Vida Breve XVIII

20.

Em dia de tempestade, a magnólia
da minha rua floresceu e, sem me dar
conta, tudo o que em mim é entranha,
começando pelas palavras,
impregnou-se de fragilidade.

Foi necessária uma lição de botânica
para perceber tudo isto. Nas plantas,
como nos meus poemas, é a duração
do período de obscuridade que
controla a floração.

[Sandra Costa]

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Manual da Vida Breve - XVII

Jib Peter


















19.

As folhas acumulam-se sobre o capot do carro


cobrindo tudo o que ali existe de referências,
de símbolos tangíveis, de factos mais ou menos
espessos que traçam os lugares da identidade

formando inúmeras camadas de matéria vegetal
que simplificando se decompõem em dimensão
ainda mensurável

e desta dissonância da chuva ergue-se
um limite mecânico à desolação do mundo                        
que ainda treme

[Sandra Costa]

sábado, 9 de novembro de 2013

Manual da Vida Breve - XVI

18.


É Novembro. Enquanto alguns pássaros
pousam sobre os fios que pautam o silêncio,
inclinando um pouco mais a tarde, outros
partem e passam em formação sobre
os prédios da cidade, tão distantes

quanto evidentes, e uma parte de mim
reconhece ali um vazio,

um lugar onde suster o coração.

[Sandra Costa]

sábado, 2 de novembro de 2013

Manual da Vida Breve - XV

10.

A forma como se começa.
                   
A luz na distância como se a espera
fosse uma sombra que não pousa.

O que envolve a casa são as imagens
que desaparecem como vazios ficam
os nomes. Porque o que ainda se desenrola
é o reconhecimento de que nada mais há
a enumerar. Fechas as janelas. As noites
descem devagar, tão devagar que desconheces
o medo que fulmina. Desfazes-te dos mantos
e das palavras. Cumpre-se a morte. Tudo
permanece igual à forma como se começa.

[Sandra Costa]

domingo, 22 de setembro de 2013

Manual da Vida Breve - XIV

David H. Gibson, Churchyard Grapes, Betlan, Spain | 1998

17.



Não te espantas com as uvas ainda 
por colher sobre o velho portão da casa.

É Outono e há um cheiro doce que se 
sobrepõe ao pó acumulado entre as pedras
do muro – em redor, os campos de milho 
já foram devastados pelas máquinas e da
terra e do que resta dos caules vem um 
outro cheiro que te recorda a infância – 

Junto ao velho portão da casa hesitas
entre tocares as sombras ou a ferrugem

– o medo é a tua mão sobre as coisas
ou o tempo que tomba com as colheitas –


[Sandra Costa]

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Manual da Vida Breve - XIII

16.


Ontem, por entre o ofício da solidão
dos campos de milho, a luz mudou
e começou Setembro [1].

Talvez agora cesse a espessura
de mistério que rodeia a penúltima
casa da aldeia e sobre aquelas ruínas
que servem de abrigo a umas quantas
árvores um pássaro levante voo
para que no último verso se revele que

a ausência não é mais do que uma vigília.

[Sandra Costa]



[1] «Mudou a luz: isto é Setembro» (Carlos Marzal).



segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Manual da vida breve XII

15.


Sobre a ponta do cavaleiro, ergue-se o farol
cuja torre se encontra do lado de terra
e a entrada está virada para o mar, como se
adivinhasse o construtor a vertigem que se
acende e se apaga naquele ofício onde quase
tudo se assemelha à solidão e que a cada três
sinais de luz branca de novo a morte se afasta
mas regressa como as constelações quando
o céu se dissipa de sombras.

[Sandra Costa]


sábado, 17 de agosto de 2013

Manual da Vida Breve - XI



14.


Para o Vítor.

Na alameda dos plátanos, em 1925 descrita
como a avenida directa ao mar, ergue-se a Vila Gladys
com o seu tom rosa embaçado, os muros bordejados
a branco e da mesma cor todos os lugares que
ali servem de cadência e de passagem: o portão tripartido,
os frisos neoclássicos das varandas e as portadas de
madeira das janelas.

Quem por ali passa nada sabe da história daquela
casa – se o salão de bilhar no rés-do-chão ainda existe,
quantas vezes Gladys se terá recordado do som do
seu violino sob a luz dedilhada da araucária, porque
terão sido cortadas as antigas palmeiras do jardim
da entrada e que (des)amores ainda poderão ser
colhidos na luz nocturna do lago.

Por último, muitos anos depois deste poema, restará
apenas o que ficou inscrito no tronco dos plátanos
como uma memória de infância: um vislumbre
da Riviera na penumbra da luz de Verão de Francelos
e que em Setembro, antecipando regressos, enrolavas
uma vez mais como se tudo aquilo fosse somente
uma planta de arquitectura.

[Sandra Costa]


domingo, 12 de agosto de 2012

Manual da vida breve - X


13.

A meio de Agosto, sentes os dias mais pequenos
nas palavras que quase não chegam aos poemas;
o milho cresce nos campos tão alto que faz
sombra sobre todas as lendas que te contaram
em criança e é rente ao chão, como num milagre,

que recolhes o início de um passado que nunca
chegará a existir. 

[Sandra Costa]


sábado, 28 de abril de 2012

Manual da vida breve - IX


3.

Com uma ou outra palavra que só existe
entre a invisibilidade das últimas magnólias
e a sombra antiga das glicínias

crio a minha fronteira entre os dias

(há muros gastos onde sempre te agarras
para olhar as nuvens) 

[Sandra Costa]



domingo, 11 de março de 2012

Manual da vida breve - VIII

Fotografia de Ana Teixeira


2.


Por detrás da casa onde cresci,
havia uma velha ameixoeira.

Quando os pássaros começam a cantar
entre os telhados, as ameixoeiras têm flores
muito juntas, muito brancas, que nunca
esqueço.

Consta que certas árvores dão frutos.


[Sandra Costa]




quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Da série «Manual da vida breve» - VII


12.

No manual da vida breve, onde os dias
se (des)fazem úteis e o tempo se conta pelos
dedos como dantes se contava a tabuada,
os poetas interrogam-se: que sabem eles
de poesia? Onde param os versos que sopram
para longe o nevoeiro que cega e entontece?

(e se desconhecem que à cor afogueada que
toma a atmosfera depois do sol se pôr se chama
arrebol, por minha vontade ditava-lhes que
ficassem sentados à sombra da vida que se
esconde a observar as morosidades dos bois
antigos nas voltas da nora à espera
do favorecimento das Graças)[1]






[1] Poema escrito sobre este texto de José Rentes de Carvalho.



Da série «Manual da vida breve» - VI


9.

Sobre o sentido de certas fábulas,
o poeta falava de uma presença dentro do vazio [1].

Se calhar, onde nada existe
passam nuvens e por vezes chove.

Sob essa amplitude das palavras,
das sombras das nuvens que passam,

a terra é cada vez mais o silêncio que resta.






[1] Expressão de Cesare Pavese em Os Cegos in Diálogos com Leucó. Lisboa: Assírio & Alvim, 2007.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Da série «Manual da vida breve» - V


5.

Não me demoro junto dos poemas.
Os dias acabam quando sensíveis
ficam as sombras. Tu estás onde
os espelhos morrem mais depressa
do que os homens.

No meu caminho, se caminho,
persiste apenas o silêncio súbito
de certas coisas: como o silêncio
daquela velha azenha sem telhado
e de pedra escurecida onde outrora
a água do ribeiro e as árvores
faziam algum sentido.

[Sandra Costa]