The Rider
Some believe the end will come
in the form of a mathematical equation.
Others believe it will descend as a shining horse.
I calculate the probabilities to be even at fifty percent.
Either a thing will happen or it won't.
I open a window,
I unmake the bed.
Somehow, I am moving closer to the equation
or to the horse with everything I do.
Death comes in the form of a horse
covered in shining equations.
There will be no further clues, I see.
I begin to read my horse.
The equations are drawn in the shapes of horses:
horses covered in equations.
I am tempted to hook an ankle
around the world as I ride away.
For I am about to ride far beyond
the low prairie of beginnings and endings.
Sarah Manguso, The Captain Lands in Paradise, 2002.
O Cavaleiro
Alguns acreditam que o fim virá
sob a forma de uma equação matemática.
Outros acreditam que descerá como um cavalo cintilante.
Calculo que as probabilidades serão iguais em cinquenta por cento.
Ou uma coisa acontecerá ou não.
Abro uma janela,
desfaço a cama.
De algum modo, aproximo-me da equação
ou do cavalo com tudo aquilo que faço.
A morte vem em forma de um cavalo
envolto em equações cintilantes.
Não haverá mais indícios, pressinto.
Começo a ler o meu cavalo.
As equações estão inscritas nas formas dos cavalos:
cavalos envoltos em equações.
Estou tentado em enganchar um tornozelo
em torno do mundo enquanto cavalgo para longe.
Porque estou prestes a cavalgar muito para além
da planície lisa dos começos e dos fins.
[Tradução de Sandra Costa, 2005]
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domingo, 15 de abril de 2018
Traições IX
Edward Hopper, Corn Hill (Truro, Cape Cod), 1930
The Dunes in Truro
A girl walks up the dunes with the aid of a cane, trying not to get sand in her heart. All around her, very beautifully, houses fall in the ocean and disappear. At least one thing is being prevented. The creeping mountains reconstitute. They are moving in some direction. It is like surfing, but very slowly. William Harvey discovered the circulatory system in 1616. It must therefore be concluded, he wrote, that the blood in the animal body moves around in a circle continously, and that the action of function of the heart is to accomplish this by pumping. This is the only reason for the motion and beat of the heart.
Sarah Manguso, The Captain Lands in Paradise, 2002.
As Dunas em Truro
Uma rapariga caminha sobre as dunas com a ajuda de uma cana, tentando que não lhe entre areia no coração. À sua volta, de forma muito bela, as casas caem no oceano e desaparecem. Pelo menos algo está a ser prevenido. A reconstituição das montanhas rastejantes. Elas movem-se nalguma direcção. É como surfar, mas muito lentamente. William Harvey descobriu o sistema circulatório em 1616. Deve-se assim concluir, escreveu, que o sangue no corpo do animal movimenta-se continuamente em círculo e que a função da acção do coração é conseguir isto, bombeando. Esta é a única razão para o movimento e o bater do coração.
[Tradução de
Sandra Costa, 2005]
Traições VIII
Address to an Absent Lover
The boy speaks in Russian (I understand him neither in the dream nor in real life). He opens his eyes and looks at me, apologizing in English for keeping them closed.
When I wake up I think he must have seen me. But when I kiss him he looks surprised, as if he were blind.
The night I met you I wrote It is possible I have imagined my entire life.
Sarah Manguso
Para um Amante Ausente
O rapaz fala em russo (nem no sonho nem na vida real o compreendo). Ele abre os olhos e olha para mim, pedindo desculpa em inglês por mantê-los fechados.
Quando acordo penso que ele me deve ter visto. Mas quando o beijo ele mostra-se surpreendido, como se fosse cego.
Na noite em que te encontrei escrevi É possível que tenha imaginado toda a minha vida.
[Tradução de
Sandra Costa, 2005]
quarta-feira, 4 de janeiro de 2017
Traições VII
COLD IN HAND BLUES
voy a decir solamente algo
y qué es lo que vas a hacer
voy a ocultarme en el lenguaje
y porqué
tengo miedo
PIZARNIK, Alejandra – El Infierno Musical. 1971.
COLD IN HAND BLUES
e o que vais dizer
vou dizer somente algo
e o que vais fazer
vou ocultar-me na linguagem
e porquê
tenho medo
PIZARNIK, Alejandra – El Infierno Musical. 1971.
[Tradução de
Sandra Costa]
quarta-feira, 26 de outubro de 2016
Traições VI - Parte III (e última)
[...] La voglia di questo mio isolamento
è stata
facilitata dal fatto che mia moglie
aveva scelto di
tornare per qualche
tempo a Mosca. Da
sola. Un viaggio che
mi sorprese
perché durante
i trent’anni di
matrimonio ero soltanto
io a decidere di
tornare per le vacanze in Russia.
Però devo dire
che l’ultimo nostro viaggio è stato più lungo
del solito e lei
riscopriva un attaccamento profondo e per
gli amici e per
tutti gli spettacoli che stavamo
vedendo. Al ritorno
tutto il labirinto della
nostra casa, com
le finestre piene di luce e di paesaggi,
non aveva
quell’accoglienza per lei come le
altre volte. Il
nostro modo di vivere un po’
isolati non la
confortava più. Quando
ha deciso di
partire per Mosca non le ho chiesto
per quanto tempo
desiderava stare lontana. Capivo che
c’era in lei uno
stordimento grande. Sono stato diversi giorni
senza voglia di
parlare, andavo nei prati alti dei mandorli nel
punto in cui
guardavo con lei la valle.
Un pomeriggio mi
sono seduto accanto
al tavolo dove
lei aveva lasciato un vaso di rose.
Adesso erano
appassite e io sentivo il
rumore dei petali
che cadevano sul
legno, come mi
aveva insegnato
lei a Mosca.
Al pidèdi ch’a lasémm ma tera
e' sòul, e’ vént e l’aqua
i li scanzèla
e néun
émm vòia da truvè s’l’è rèst
un sègn o un’òmbra.
Dòp a trent’an u i àla mi mòi
a Mosca ch’la zirca al paróli
masèdi tra l’èrba di prè
indò che a sufiémmi mi palunzóin
ad pòrbia d’piómmi
che i fiéur
d’la cicória i lasa te
murói.
Le orme che lasciamo a terra,
il sole, il vento e l’acqua
le cancellano
e noi
cerchiamo sempre se resta
un segno o un’ombra.
Dopo trent’anni c’è mia moglie
a Mosca che cerca le parole
nascoste tra l’erba del prato
dove soffiavamo nei palloncini
di polvere di piume
che i fiori
della cicoria lasciano nel morire.
GUERRA, Tonino – Una foglia contro i fulmini.
Santarcangelo di Romagna: Maggioli Editore, 2006, p. 9 – 13.
[...] O desejo deste meu isolamento
foi facilitado pelo facto de a minha mulher
ter decidido regressar por algum
tempo a Moscovo. Sozinha. Uma viagem que
me surpreendeu porque durante
os trinta anos de casamento fora apenas
eu a decidir regressar durante as férias à Rússia.
No entanto, devo dizer que a nossa última viagem foi mais
longa
que o habitual e ela ia redescobrindo uma afeição profunda
quer pelos
seus amigos quer por todos os espectáculos a que
assistíamos. No regresso todo o labirinto da
nossa casa, com as janelas cheias de luz e de paisagens,
não lhe dava o mesmo acolhimento das
outras vezes. O nosso modo de viver algo
isolado já não a confortava. Quando
decidiu partir para Moscovo não lhe perguntei
por quanto tempo desejava estar longe. Compreendi que
havia nela um grande atordoamento. Estive diversos dias
sem vontade de falar, andava pelos altos prados das
amendoeiras no
lugar onde contemplava o vale com ela.
Uma tarde estava sentado ao pé
da mesa onde ela deixara um vaso de rosas.
Estavam murchas agora e eu sentia o
rumor das pétalas que caíam sobre
a madeira, como ela me tinha ensinado
em Moscovo.
As pegadas que
deixamos na terra,
o sol, o vento e a
água
apagam-nas
e nós
procuramos sempre se
sobra
um sinal ou uma
sombra.
Depois de trinta anos
é a minha mulher
em Moscovo que procura
as palavras
escondidas entre a
erva do prado
onde sopram os grãos
de poeira das plumas
que as flores
da chicória libertam
ao morrer.
GUERRA, Tonino – Una foglia contro i fulmini.
Santarcangelo di Romagna: Maggioli Editore, 2006, p. 9 – 13. [Tradução de
Sandra Costa e revisão de Andrea Ragusa]
segunda-feira, 24 de outubro de 2016
Traições VI - Parte II
davanti a
costruzioni in rovina. Ho bisogno di sentire
la presenza di
spessori, di incrostazioni create
dalla pioggia,
dal sole e delle pietre che si
smarrivano, così
capisco che la natura dà un suo
contributo
fondamentale all’architettura regalando
l’impronta del
tempo e della morte. I palazzi gotici e del
rinascimento così
ben conservati chiedono soltanto la mia
ammirazione e
invece i monumenti in rovina, oltre all’ammirazione
vogliono
commozione e affetto per la loro agonia umana.
In più devo
confessarvi che entrano nella memoria
le conversazioni
silenziose con oggetti e
presenze mute.
Quei colloqui segreti
che ci riempiono
di verità nascoste.
Per queste mie
voglie di borghi abbandonati
molto è dipeso
anche da un orto che confinava
col cortile di
casa mia in via Verdi. Quattro metri
di rete metallica
prima della lunga capanna sbilenca dove
stava ammucchiato
il carbone che mio padre vendeva pesandolo
con una bilancia
appesa al soffitto. Oltre i quattro metri
di rete metallica
c’era l’erba verde del campo Meloti,
chiuso sulla
destra dall’orto della famiglia
Moroni. Allora
c’era grande amicizia
tra me e
Federico, il loro figlio più grande.
Quando pioveva
stavamo nella sua stalla per sentire
che la pioggia
batteva sulla foglia del fico e de galline lasciavano
orme sul terreno
umido e facevano pensare a scritture
giapponesi. [...]
GUERRA, Tonino – Una foglia contro i fulmini.
Santarcangelo di Romagna: Maggioli Editore, 2006, p. 9 – 13.
[...] A maravilha e a emoção apoderam-se de mim de um golpe se me
encontro
perante construções em ruína. Preciso de sentir
a presença das espessuras, das incrustações criadas
pela chuva, pelo sol e pelas pedras que se
extraviam, pois assim compreendo que a natureza dá um
contributo fundamental à arquitectura presenteando-a
com a marca do tempo e da morte. Os palácios góticos e do
renascimento tão bem conservados pedem apenas a minha
admiração enquanto os
monumentos em ruína, para além de admiração,
desejam comoção e afecto pela sua agonia humana.
Mais, devo confessar que se entranham na memória
as conversações silenciosas com objectos e
presenças mudas. Aqueles diálogos secretos
que se enchem de verdades escondidas.
Estes meus desejos por aldeias abandonadas
dependiam muito também de uma horta que confinava
com o pátio da minha casa na via Verdi. Quatro metros
de rede metálica antes da grande cabana desequilibrada onde
estava amontoado o carvão que o meu pai vendia pesando-o
com uma balança suspensa do tecto. Adiante dos quatro metros
de rede metálica ficava a erva verde do campo Meloti,
fechado sobre a direita da horta da família
Moroni. Naquele tempo existia uma grande amizade
entre mim e Federico, o filho deles mais velho.
Quando chovia encontrávamo-nos no seu curral para sentir
como a chuva batia sobre as folhas da figueira e as galinhas
deixavam
pegadas sobre o terreno húmido e nos faziam pensar na
caligrafia
japonesa. [...]
GUERRA, Tonino – Una foglia contro i fulmini.
Santarcangelo di Romagna: Maggioli Editore, 2006, p. 9 – 13. [Tradução de
Sandra Costa e revisão de Andrea Ragusa]
sábado, 22 de outubro de 2016
Traição VI - Parte I
LA NECESSITÀ DI
ISOLARMI è cominciata quando
ho capito che le
mie riflessioni navigavano in
un vuoto
polveroso della mente.
Dovevo staccarmi
da tutto e toccare
con le mani e coi
pensieri la mia infanzia.
Ritrovare il
gusto che avevo da ragazzo quando mi facevo
cadere la pioggia
in bocca. Avevo bisogno di
tenere una foglia
in mano e seguire un
odore di erbe
selvatiche e i cigolii
delle docce
arrugginite che trascinavano l’acqua
lungo i muri dei
cortili. Quando sono arrivato nella
zona delle piume,
territorio appartato dell’Appennino già
toscano, sono
rimasto sorpreso perché mi è successo quello che era
capitato a una
maestra calabrese. La Signora da anni voleva
comprare una casa
sulle colline romagnole ma non riusciva mai a decidere
l’acquisto perché
c’era sempre qualcosa che
la deludeva. Un
giorno, a pochi passi
dalla Repubblica
di San Marino,
scoprì una casa
antica accanto a un cimitero
abbandonato e se
ne innamorò perdutamente. Volle
comprarla subito
e sentì essere arrivata a possedere un
mondo che aspettava
di essere abitato da lei.
Un anno dopo un
parente le inviò una
rivista calabrese
dove era fotografata
la vecchia
abitazione dei suoi antenati con
un cimitero
accanto abbandonato. Vide subito
che la casa
acquistata era identica a quella dove c’erano
le origini della
sua famiglia. I ruderi e le casupole
malandate che
avevo adesso davanti
agli occhi mi
hanno fatto
ricordare che mio fratello mi aveva portato alcune volte
in quella zona
per comprare il carbone che mio padre vendeva
nel vecchio
magazzino di Santarcangelo.
Ormai ho una
convinzione definitiva: ho bisogno
di strade non
asfaltate, terreni fatti di crosta secca dove
una nuvola
d’acqua fa crescere i fiori sotto i tuoi
occhi, che súbito
appassiscono. [...]
GUERRA, Tonino – Una foglia contro i fulmini.
Santarcangelo di Romagna: Maggioli Editore, 2006, p. 9 – 13.
A NECESSIDADE DE ME ISOLAR começou
quando percebi que os meus
pensamentos navegavam
num vazio empoeirado da mente.
Tinha de me despegar de tudo e tocar
com a mão e com os pensamentos a minha infância.
Reencontrar o gosto que tinha em rapaz quando deixava
cair a chuva na boca. Tinha necessidade de
ter uma folha na mão e seguir um
odor de ervas selvagens e os rangidos
das caleiras enferrujadas que arrastavam a água
ao longo dos muros dos quintais. Quando cheguei à
zona das plumas, território isolado dos Apeninos já
toscano, fiquei surpreso porque aconteceu-me o mesmo que
sucedeu a uma professora da Calábria. Há anos que a Senhora
queria
comprar uma casa nas colinas romagnolas mas nunca mais se
conseguia decidir
pela compra porque havia sempre alguma coisa
que a desiludia. Um dia, a poucos passos
da República de S. Marino,
descobriu uma casa antiga ao lado de um cemitério
abandonado pela qual se enamorou perdidamente. Quis
comprá-la de imediato e sentiu que acabava de possuir um
mundo que esperava ser habitado por ela.
Um ano depois um parente enviou-lhe uma
revista da Calábria onde estava fotografada
a velha casa dos seus antepassados com
um cemitério ao lado abandonado. Viu de imediato
que a casa comprada era idêntica àquela de onde vinham
as origens da sua família. As ruínas e os casebres
em mau estado que agora tinha diante
dos meus olhos
fizeram-me recordar que o meu irmão me tinha levado algumas
vezes
àquela região para comprar o carvão que o meu pai vendia
no velho armazém de Santarcangelo.
Agora tenho uma convicção definitiva: preciso
de estradas não asfaltadas, terrenos feitos de crosta seca
onde
uma nuvem de água faz crescer as flores sob os teus
olhos, que de imediato murcham. [...]
GUERRA, Tonino – Una foglia contro i fulmini.
Santarcangelo di Romagna: Maggioli Editore, 2006, p. 9 – 13. [Tradução de
Sandra Costa e revisão de Andrea Ragusa]
segunda-feira, 29 de agosto de 2016
Traições V
Two Figures In Dense Violet Night
I had as lief be embraced by the porter at the hotel
As to get no more from the moonlight
Than your moist hand.
Be the voice of night and Florida in my ear.
Use dusky words and dusky images.
Darken your speech.
Speak, even, as if I did not hear you speaking,
But spoke for you perfectly in my thoughts,
Conceiving words,
As the night conceives the sea-sounds in silence,
And out of their droning sibilants makes
A serenade.
Say, puerile, that the buzzards crouch on the ridge-pole
And sleep with one eye watching the stars fall
Below Key West.
Say that the palms are clear in a total blue,
Are clear and are obscure; that it is night;
That the moon shines.
Wallace Stevens, de Harmonium | 1923
Duas figuras numa densa noite violeta
Tanto me agradava ser abraçado pelo porteiro no hotel
Como nada mais conseguir do luar
Do que a tua mão húmida.
Sê a voz da noite e Florida no meu ouvido.
Usa palavras sombrias e imagens sombrias.
Escurece o teu discurso.
Fala, ainda, como se eu não te tivesse ouvido falar,
Mas te falasse perfeitamente nos meus pensamentos,
Concebendo palavras,
Como a noite concebe os sons do mar em silêncio,
E dos seus zumbidos sibilantes faz
Uma serenata.
Diz, pueril, que os bútios se inclinam sobre as vigas do telhado
E dorme com um olho observando a queda das estrelas
Abaixo de Key West.
Diz que as palmeiras são claras num azul absoluto,
São claras e são obscuras; que é noite;
Que a lua brilha.
Tradução: Sandra Costa (2005)
I had as lief be embraced by the porter at the hotel
As to get no more from the moonlight
Than your moist hand.
Be the voice of night and Florida in my ear.
Use dusky words and dusky images.
Darken your speech.
Speak, even, as if I did not hear you speaking,
But spoke for you perfectly in my thoughts,
Conceiving words,
As the night conceives the sea-sounds in silence,
And out of their droning sibilants makes
A serenade.
Say, puerile, that the buzzards crouch on the ridge-pole
And sleep with one eye watching the stars fall
Below Key West.
Say that the palms are clear in a total blue,
Are clear and are obscure; that it is night;
That the moon shines.
Wallace Stevens, de Harmonium | 1923
Duas figuras numa densa noite violeta
Tanto me agradava ser abraçado pelo porteiro no hotel
Como nada mais conseguir do luar
Do que a tua mão húmida.
Sê a voz da noite e Florida no meu ouvido.
Usa palavras sombrias e imagens sombrias.
Escurece o teu discurso.
Fala, ainda, como se eu não te tivesse ouvido falar,
Mas te falasse perfeitamente nos meus pensamentos,
Concebendo palavras,
Como a noite concebe os sons do mar em silêncio,
E dos seus zumbidos sibilantes faz
Uma serenata.
Diz, pueril, que os bútios se inclinam sobre as vigas do telhado
E dorme com um olho observando a queda das estrelas
Abaixo de Key West.
Diz que as palmeiras são claras num azul absoluto,
São claras e são obscuras; que é noite;
Que a lua brilha.
Tradução: Sandra Costa (2005)
segunda-feira, 26 de janeiro de 2015
Manual da Vida Breve XX (Versão em italiano)
22.
E il terzo giorno sulla terraferma
ove l'erbe e le piante darebbero sementi
e gli alberi sarebbero più prossimi ai frutti,
e gli alberi sarebbero più prossimi ai frutti,
è successo che han potato la magnolia
della mia via e la strada si è ricoperta della
fioritura que non è giunta a illuminare i giorni.
È passata la mattinata ed è giunto il pomeriggio
e un passero si è posato su uno dei pochi
rami rimasti ad aprire il chiarore
dinanzi al silenzio, intessendo così
la poesia sul retro della creazione.
E certi uomini hanno creduto che tutto ciò
fosse una cosa bella.
[Tradução de Andrea Ragusa, colaborador do blogue Poesia & Lda.]
sexta-feira, 26 de dezembro de 2014
Traições IV
An Arundel Tomb
Side by side, their faces blurred,
Side by side, their faces blurred,
The earl
and countess lie in stone,
Their
proper habits vaguely shown
As jointed
armour, stiffened pleat,
And that
faint hint of the absurd –
The little
dogs under their feet.
Such
plainness of the pre-baroque
Hardly involves
the eye, until
It meets
his left-hand gauntlet, still
Clasped
empty in the other; and
One sees,
with a sharp tender shock,
His hand
withdrawn, holding her hand.
They would
not think to lie so long.
Such
faithfulness in effigy
Was just a
detail friends would see:
A
sculptor’s sweet commissioned grace
Thrown off
in helping to prolong
The Latin
names around the base.
They would
not guess how early in
Their
supine stationary voyage
The air
would change to soundless damage,
Turn the
old tenantry away;
How soon
succeeding eyes begin
To look,
not read. Rigidly they
Persisted,
linked, through lengths and breadths
Of time.
Snow fell, undated. Light
Each summer
thronged the glass. A bright
Litter of
birdcalls strewed the same
Bone-riddled
ground. And up the paths
The endless
altered people came,
Washing at
their identity.
Now,
helpless in the hollow of
An
unarmorial age, a trough
Of smoke in
slow suspended skeins
Above their
scrap of history,
Only an
attitude remains:
Time has
transfigured them into
Untruth.
The stone fidelity
They hardly
meant has come to be
Their final
blazon, and to prove
Our
almost-instinct almost true:
What will survive of us is love.
Philip Larkin, The Whitsun Weddings.
Lado a lado, os seus rostos indistintos,
O Conde e a Condessa repousam em pedra,
Com os seus hábitos vagamente dispostos
Como uma armadura conjunta, rígidos os vincos,
E aquela vaga sugestão do absurdo –
Os pequenos cães a seus pés.
Esta evidência do pré-barroco
Dificilmente prende o olhar, até que
Se encontra a sua luva esquerda, vazia
Ainda apertada na outra mão; e
Se vê, com um arrepio agudo e terno,
A sua mão afastada, segurando a mão dela.
Eles não pensavam repousar por tanto tempo.
Tal lealdade em efígie
Era apenas um detalhe que os amigos veriam:
Uma graça gentil encomendada ao escultor
Improvisada para ajudar a prolongar
Os nomes em latim em redor da base.
Eles não imaginavam que tão cedo na
Sua imóvel e inerte viagem
O ar se transformaria em silenciosa perda,
Afastando os velhos inquilinos;
Que em breve outros olhos começaram
A ver, não a ler. Rigidamente eles
Persistiram, unidos, através da lonjura e da distância
Do tempo. Neve caiu, sem data. A luz
Encheu os vitrais a cada Verão. Detritos
Brilhantes de pássaros cobriram aquele
Chão crivado de ossos. E pelos caminhos
Chegaram as intermináveis pessoas alteradas,
Lavadas da sua identidade.
Agora, abandonado no fundo de
Uma era armorial, um algeroz
De fumo paira numa lenta espiral
Sobre este seu fragmento de história,
Apenas resta uma atitude:
O tempo transfigurou-os em
Falsidade. A fidelidade da pedra
Que dificilmente planearam tornou-se
O seu brasão final, e para provar
O nosso quase instinto quase verdade:
O que sobreviverá de nós é o amor.
Tradução: Sandra Costa [2014].
sábado, 31 de março de 2012
Traições III
For
many years, always in March,
I’ve felt sorry for these quiet
days and cloudy skies. The arrival
of the real spring has something
frightening in it. Everything
is suddenly new and strange - the doormat, unwashed windows,
willow buds, tufts of grass sticking up through the snow,
the starlings and the moon above the floodplain.
Everything is like a call, everything's tempting and luring you
out of the room, out of home, out of yourself, out of mind,
to flow over land and water, to go somewhere else,
to be somewhere else, somebody else,
and if you cannot then at least
to shout, to dance, to write,
to sing some stupid spring songs
in order to soothe this urge.
I can’t understand whether it’s in the blood or in the mind
or somewhere else. Maybe it’s the cellular memory
of my ancestors - fish, birds or peasants -
the memory of previous lives awakening in me
an urge to swim to flooded meadows to spawn
to look for a partner and a nesting place
to feel with a hand whether the soil is warm enough;
or something even more mysterious and archaic:
the understanding of a seed that it's time to sprout,
the thrill and fear of yet another death and birth.
I’ve felt sorry for these quiet
days and cloudy skies. The arrival
of the real spring has something
frightening in it. Everything
is suddenly new and strange - the doormat, unwashed windows,
willow buds, tufts of grass sticking up through the snow,
the starlings and the moon above the floodplain.
Everything is like a call, everything's tempting and luring you
out of the room, out of home, out of yourself, out of mind,
to flow over land and water, to go somewhere else,
to be somewhere else, somebody else,
and if you cannot then at least
to shout, to dance, to write,
to sing some stupid spring songs
in order to soothe this urge.
I can’t understand whether it’s in the blood or in the mind
or somewhere else. Maybe it’s the cellular memory
of my ancestors - fish, birds or peasants -
the memory of previous lives awakening in me
an urge to swim to flooded meadows to spawn
to look for a partner and a nesting place
to feel with a hand whether the soil is warm enough;
or something even more mysterious and archaic:
the understanding of a seed that it's time to sprout,
the thrill and fear of yet another death and birth.
Jaan Kaplinski, Selected Poems, Bloodaxe Books, 2011.
Durante muitos anos, sempre em Março,
senti pena destes dias tranquilos
e céus nublados. A chegada
da verdadeira Primavera tem algo
de assustador. Tudo
de súbito é novo e estranho - a esteira,
as janelas sujas,
os botões do salgueiro, os tufos de erva
a espreitar por entre a neve,
os estorninhos e a lua sobre a planície
alagada.
Tudo é uma invocação, tudo é tentador e
te atrai
para fora do quarto, fora de casa, fora
de ti, fora do pensamento,
para fluir sobre a terra e a água, para
ir para outro lugar,
para estar noutro lugar, ser outra
pessoa,
e se não o conseguires pelo menos
gritar, dançar, escrever,
cantar algumas canções estúpidas de
Primavera
a fim de acalmar esta ânsia.
Não consigo perceber se isto está no
sangue se na mente
se noutro lugar. Talvez seja a memória
celular
dos meus antepassados - peixes, pássaros
ou camponeses -
a memória de vidas passadas a despertar
em mim
uma ânsia de nadar até prados alagados
para desovar
para encontrar um parceiro e um lugar
para nidificar
para sentir com uma mão se a terra está
suficientemente quente;
ou algo ainda mais misterioso e arcaico:
a percepção da semente na hora de germinar,
a emoção e o medo de outra morte e outro
nascimento.
Tradução: Sandra Costa [2012].
Traições II
Only at
dusk do eyes really begin to see.
The colours of flowers become lucid and bright
before night extinguishes them: carnations, yellow roses,
meadow-vetch and buttercups.
The wind has died down, and the sky
- the faded, nearly invisible
background of all our comings and goings -
is suddenly here, just above the treetops and pylons,
shining through foliage and above the roof of the house
in all its depth and blueness. Behind the outhouse
Venus appear; to the right of the pole of the well - Jupiter,
once two gods, now two stars.
The colours of flowers become lucid and bright
before night extinguishes them: carnations, yellow roses,
meadow-vetch and buttercups.
The wind has died down, and the sky
- the faded, nearly invisible
background of all our comings and goings -
is suddenly here, just above the treetops and pylons,
shining through foliage and above the roof of the house
in all its depth and blueness. Behind the outhouse
Venus appear; to the right of the pole of the well - Jupiter,
once two gods, now two stars.
................................................................................................
There
is no God,
there is no director,
there is no conductor.
The world makes itself happen,
the play plays itself,
there is no director,
there is no conductor.
The world makes itself happen,
the play plays itself,
the
orchestra plays itself.
And if the violin drops from somebody´s hand
and their heart stops beating
the man and his death never meet:
there´s nothing behind the glass;
the other side is nothing, is just a mirror
where my own fear regards me
with big eyes.
And behind this fear,
if only you look carefully enough,
there are grass and sunflowers
turning slowly by themselves towards the sun
without a God, a director, a conductor.
And if the violin drops from somebody´s hand
and their heart stops beating
the man and his death never meet:
there´s nothing behind the glass;
the other side is nothing, is just a mirror
where my own fear regards me
with big eyes.
And behind this fear,
if only you look carefully enough,
there are grass and sunflowers
turning slowly by themselves towards the sun
without a God, a director, a conductor.
Jaan Kaplinski, Selected Poems, Bloodaxe Books, 2011.
Só quando anoitece os olhos realmente
começam a ver.
As cores das flores tornam-se lúcidas e
brilhantes
antes que a noite as extinga: cravos,
rosas amarelas,
ervilhas-do-prado e botões-de-ouro.
O vento esmoreceu, e o céu
- o desbotado, quase invisível
fundo das nossas idas e vindas -
de repente está aqui, mesmo sobre a copa
das árvores e dos postes,
brilhando através da folhagem e sobre o
telhado da casa
em toda a sua profundidade e melancolia.
Por trás do anexo
Vénus aparece; à direita do esteio do
poço - Júpiter,
outrora dois deuses, agora duas estrelas.
................................................................................................
Não há um Deus,
não há um encenador,
não há um maestro.
O mundo acontece por si mesmo,
a peça encena-se a si mesma,
a orquestra toca por si mesma.
E se o violino cai da mão de alguém
e o seu coração pára de bater
o homem e a sua morte nunca se
encontram:
nada há por trás do vidro,
o outro lado é nada, é apenas um espelho
onde o meu próprio medo olha para mim
com olhos grandes.
E por trás desse medo,
se olhares com o cuidado suficiente,
há relva e girassóis
que giram lentamente sobre si mesmos em
direção ao sol
sem um Deus, um encenador, um maestro.
Tradução: Sandra Costa [2012]
quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012
Traições I
Tattoo
The light is like a spider.
It crawls over the water.
It crawls over the edges of the snow.
It crawls under your eyelids
And spreads its webs there--
Its two webs.
The webs of your eyes
Are fastened
To the flesh and bones of you
As to rafters or grass.
There are filaments of your eyes
On the surface of the water
And in the edges of the snow.
Wallace Stevens
Tatuagem
A luz é como uma aranha.
Move-se sobre a água.
Move-se sobre os contornos da neve.
Move-se sob as tuas pálpebras
E aí espalha as suas teias—
As suas duas teias.
As teias dos teus olhos
Estão presas
À tua carne e aos teus ossos
Como em traves ou na relva.
Há filamentos dos teus olhos
Na superfície da água
E nos contornos da neve.
Tradução: Sandra Costa (2005)
The light is like a spider.
It crawls over the water.
It crawls over the edges of the snow.
It crawls under your eyelids
And spreads its webs there--
Its two webs.
The webs of your eyes
Are fastened
To the flesh and bones of you
As to rafters or grass.
There are filaments of your eyes
On the surface of the water
And in the edges of the snow.
Wallace Stevens
Tatuagem
A luz é como uma aranha.
Move-se sobre a água.
Move-se sobre os contornos da neve.
Move-se sob as tuas pálpebras
E aí espalha as suas teias—
As suas duas teias.
As teias dos teus olhos
Estão presas
À tua carne e aos teus ossos
Como em traves ou na relva.
Há filamentos dos teus olhos
Na superfície da água
E nos contornos da neve.
Tradução: Sandra Costa (2005)
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