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sábado, 14 de abril de 2012

Polaroids - III

Polaroid de Andrei Tarkovsky. Daqui.

O ângulo retira da imagem o que está para além da melodia das coisas[1]. Fica a casa, outra casa onde o tempo também rasgou as paredes, o limoeiro carregado pelo aroma dos limões e um azulejo com a Virgem como se soubéssemos que a existência tem sempre necessidade de encontrar a primeira palavra para anunciar o sagrado. Não chove e a luz, rarefeita ainda quando passo, é a do mundo pela manhã.

Sandra Costa



[1] Do título da obra de Rainer Maria Rilke, Notas sobre a melodia das coisas (Averno, 2011).


[série de textos/poemas, chamem-lhe o que quiserem, que não foi escrita para as belíssimas polaroids de Tarkovsky]



quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Polaroids - II

Polaroid de Andrei Tarkovsky. Daqui.
«Polaroids»

II

O muro fica num caminho que deixei de percorrer e forma uma curva coberta de folhas vermelhas adornadas pelo sol. Ao lado do muro, a estrada é em alcatrão mas as bermas são de terra e de ervas daninhas. Com alguma atenção, consigo ver as nuvens projectadas no princípio daquilo que fica para trás.


Sandra Costa

[série de textos/poemas, chamem-lhe o que quiserem, que não foi escrita para as belíssimas polaroids de Tarkovsky]

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Polaroids - I










Polaroid de Andrei Tarkovsky.
Daqui.


«Polaroids»

I

Pressinto que o silêncio pode ser uma forma de combater a imobilidade. Coloco em cima da mesa a imagem da casa que tem uma tonalidade rosa velho nos pedaços de parede que ainda não caíram. A casa onde as fendas não começam nem acabam e os restantes pedaços de parede parecem sugerir que todos os poemas têm algo de abandonado. A porta principal permanece com um cadeado mesmo quando levanto os olhos para o céu e os vidros das janelas talvez nunca estivessem lá. Um dia, hei-de parar o carro em frente à casa e tentar perceber se o que nela me encanta é a luz trémula que imagino sobre os soalhos ou a certeza que não há uma explicação para o invisível.

Sandra Costa



[série de textos/poemas, chamem-lhe o que quiserem, que não foi escrita para as belíssimas polaroids de Tarkovsky]