sábado, 28 de janeiro de 2012

Untitled III

Bert Hardy, Down the Bay, 1950

1950, nas ruas de Tiger Bay. A chuva deixou
um travo de luz sobre os telhados, a estrada e o
passeio onde esperas, prefiro pensar assim,
sabe-se lá por quem. Do teu lado direito, a casa
prolonga-se como o teu olhar                  como um verso
que bate no dorso da tarde e não volta cheio
de sílabas nem de música. Cai uma sombra sobre
esse plano da fotografia e traças com o silêncio
uma linha, uma haste para nenhum lugar onde
o Inverno é tão só a floração do medo.

[Sandra Costa]



segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Da série «Manual da vida breve» - V


5.

Não me demoro junto dos poemas.
Os dias acabam quando sensíveis
ficam as sombras. Tu estás onde
os espelhos morrem mais depressa
do que os homens.

No meu caminho, se caminho,
persiste apenas o silêncio súbito
de certas coisas: como o silêncio
daquela velha azenha sem telhado
e de pedra escurecida onde outrora
a água do ribeiro e as árvores
faziam algum sentido.

[Sandra Costa]

domingo, 15 de janeiro de 2012

Untitled II

Dorothea Lange, Day Sleeper, 1943


O ângulo de luz da manhã sobre a porta da casa no estaleiro
é o mesmo de Hopper sobre a solidão do quarto junto ao mar.
Alguém dorme em turnos em tempo de guerra não se importando
com a geometria das sombras ou com o que fazes da contemplação
de uma placa enferrujada pelo sal apregoando o silêncio.

Tantos anos depois do sono atravessado pelo olhar de Lange,
em que verso, em que ângulo, te deténs à espera do poema?

[Sandra Costa]


Untitled I


Maurice Tabard, Untitled, 1932.


Constróis o poema como se esta pudesse ser uma outra
estrada, um outro rio              se ali visses um rio,
outras as árvores em declinação até ao infinito.

Na depuração da luz, se o mundo se assemelhasse
a esse outro mundo não haveria por aqui qualquer
mistério para resolver, o trilho no centro da imagem
seria de tantas bicicletas que por ali passaram
em direcção ao que existe para além da nublada
perspectiva das coisas.

Quando olhas vês uma estrada     como vês um rio
e tudo transborda de sombras, de luz e de árvores.

[Sandra Costa]


domingo, 8 de janeiro de 2012

Da série «Manual da vida breve» - IV

Fotografia(s) de Ana Teixeira.

11.

Junto à barragem, num reflexo
sobre a água onde o que existe é apenas
a luz trémula de um verso por escrever,
na sombra sobre a terra à medida que
a tarde desaparece na melancolia, nos
contornos de negrume fundeados
na contraluz

ou entre a névoa como se não soubéssemos
que ali fica um reino onde pousam as palavras
do lado do avesso, ali

junto à barragem, erguem-se três árvores,
talvez carvalhos, que assim fizeram as imagens
tão distantes do poema.

[Sandra Costa]


quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Da série «Manual da vida breve» - III




















8.

Os poemas não se abriram às magnólias
neste Inverno. Não cobrem os muros como
o musgo. Não escurecem as paredes da casa
como as manchas do tempo ou como as
sombras que hão-de vir. Não tornam os dias
mais frios como aquele raio de sol sobre
o velho cata-vento da casa de lavoura.

Não se ouvem os nomes que desaparecem
ou se perdem para além do lugar onde as aves
repousam sobre a distância.

(e assim se sentem as alterações climáticas
nas coisas simples)

[Sandra Costa]