segunda-feira, 1 de maio de 2017

Epigrafia #2

     Fotografia de Ekaterina Belitskaya

«explica-me este verso
pedias
como se a luz
pudesse
permanecer intacta
sobre a tua mão.»

Ana Paula Inácio, Anónimos do séc. XXI, Averno, 2016, p. 45.


Não expliques nenhum verso.
Peço-te.

Deixa que a luz tombe
sobre as janelas quase abandonadas
da varanda

e que as sombras de ferro forjado
que perduram nas cortinas
mesmo anoitecendo

sejam a única coisa intacta
no interior do poema.

[Sandra Costa]

quinta-feira, 6 de abril de 2017

Nada se sabe das profundezas


NADA SE SABE DAS PROFUNDEZAS
(primeiro estudo para uma duplicidade)



#1

À superfície do mundo
a ondulação do desejo:

uma pedra - o amor - submersa.

#2
pode o poema permanecer
em círculo      água em movimento
e sempre insuficientes as pálpebras
susterem o silêncio?

#3
talvez esta seja a textura dos dias
se aproximam das profundezas:
a agitação sob a luz nada revela
e criam-se estratificações nebulosas
junto ao olhar como se a inquietude
- a água - fosse o único ritual
capaz de criar o mundo.

#4
[quero] toda a poesia é assim:
um lugar onde a superfície
esconde mais do que revela
e a morte é a pedra possível dentro da água
ao alcance do braço se nada se sabe das profundezas


[Sandra Costa]

(texto integral de um livrinho de 8x5,5 cm, com projecto gráfico e fotografias de Paulo Gaspar Ferreira e editado pela in-libris, em 2003)


sábado, 21 de janeiro de 2017

Untitled VIII

Bert Hardy, Boys with comic, 1940




1940, nas ruas de Liverpool. Quatro rapazes
leem um livro de banda desenhada, como se não
houvesse outro tempo nem outro lugar, enquanto
comem maçãs junto a uma montra repleta de fruta.
O abandono é tão real que tudo o resto é como
o vento estendido nas cordas da roupa: não existe

pelo que escondo nas dobras silenciosas do poema
a contradição entre a abundância e o clarão
da guerra que vacila no capacete de um deles.

[Sandra Costa]

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Traições VII

COLD IN HAND BLUES

y qué es lo que vas a decir
voy a decir solamente algo
y qué es lo que vas a hacer
voy a ocultarme en el lenguaje
y porqué
tengo miedo

PIZARNIK, Alejandra – El Infierno Musical. 1971.


COLD IN HAND BLUES

e o que vais dizer
vou dizer somente algo
e o que vais fazer
vou ocultar-me na linguagem
e porquê
tenho medo


PIZARNIK, Alejandra – El Infierno Musical. 1971.


[Tradução de Sandra Costa]




sábado, 24 de dezembro de 2016

Poema de Natal | Dezembro de 2016


Poema de Natal

Lc, 2, 15 «Vamos até Belém e vejamos esta palavra que aconteceu»

Bíblia, Novo Testamento, Os Quatro Evangelhos, Vol. I. Lisboa: Quetzal, 2016 (Tradução de Frederico Lourenço).


Aconteceu que, nos quatro Evangelhos,
apenas no de Lucas a criança anunciada
nasce na manjedoura, guardada por pastores
e um anjo, para ser um sinal recusado,
e nem é certo que assim tenha acontecido.

Aconteceu que, para que se cumprisse a profecia,
é Mateus que enuncia os Magos que ali vieram
atrás do astro do Oriente,
e nem é certo que sejam três, só porque ofereceram
ouro, incenso e mirra.

Aconteceu que, talvez tendo sido o primeiro,
Marcos ignora como tudo começou,
falando de veredas, da água do Jordão e de erros,
e nem é certo que a boa nova seja o princípio
deste evangelho.

Aconteceu que, dos quatro evangelistas,
João é o único que convoca no princípio
a palavra, o verbo na versão que todos conhecemos,
e nem é certo qual seria a sua intenção,

e por tudo isto creio num poema
onde a luz brilha na escuridão.

Dezembro de 2016

[Sandra Costa]



Nota: Poema que abusa das palavras de Frederico Lourenço na sua tradução dos Quatros Evangelhos.

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Traições VI - Parte III (e última)













[...] La voglia di questo mio isolamento
è stata facilitata dal fatto che mia moglie
aveva scelto di tornare per qualche
tempo a Mosca. Da sola. Un viaggio che
mi sorprese perché durante
i trent’anni di matrimonio ero soltanto
io a decidere di tornare per le vacanze in Russia.
Però devo dire che l’ultimo nostro viaggio è stato più lungo
del solito e lei riscopriva un attaccamento profondo e per
gli amici e per tutti gli spettacoli che stavamo
vedendo. Al ritorno tutto il labirinto della
nostra casa, com le finestre piene di luce e di paesaggi,
non aveva quell’accoglienza per lei come le
altre volte. Il nostro modo di vivere un po’
isolati non la confortava più. Quando
ha deciso di partire per Mosca non le ho chiesto
per quanto tempo desiderava stare lontana. Capivo che
c’era in lei uno stordimento grande. Sono stato diversi giorni
senza voglia di parlare, andavo nei prati alti dei mandorli nel
punto in cui guardavo con lei la valle.
Un pomeriggio mi sono seduto accanto
al tavolo dove lei aveva lasciato un vaso di rose.
Adesso erano appassite e io sentivo il
rumore dei petali che cadevano sul
legno, come mi aveva insegnato
lei a Mosca.

Al pidèdi ch’a lasémm ma tera
e' sòul, e’ vént e l’aqua
i li scanzèla
e néun
émm vòia da truvè s’l’è rèst
un sègn o un’òmbra.
Dòp a trent’an u i àla mi mòi
a Mosca ch’la zirca al paróli
masèdi tra l’èrba di prè
indò che a sufiémmi mi palunzóin
ad pòrbia d’piómmi
che i fiéur
d’la cicória i lasa te murói.

Le orme che lasciamo a terra,
il sole, il vento e l’acqua
le cancellano
e noi
cerchiamo sempre se resta
un segno o un’ombra.
Dopo trent’anni c’è mia moglie
a Mosca che cerca le parole
nascoste tra l’erba del prato
dove soffiavamo nei palloncini
di polvere di piume
che i fiori
della cicoria lasciano nel morire.

GUERRA, Tonino – Una foglia contro i fulmini. Santarcangelo di Romagna: Maggioli Editore, 2006, p. 9 – 13. 


[...] O desejo deste meu isolamento
foi facilitado pelo facto de a minha mulher
ter decidido regressar por algum
tempo a Moscovo. Sozinha. Uma viagem que
me surpreendeu porque durante
os trinta anos de casamento fora apenas
eu a decidir regressar durante as férias à Rússia.
No entanto, devo dizer que a nossa última viagem foi mais longa
que o habitual e ela ia redescobrindo uma afeição profunda quer pelos
seus amigos quer por todos os espectáculos a que
assistíamos. No regresso todo o labirinto da
nossa casa, com as janelas cheias de luz e de paisagens,
não lhe dava o mesmo acolhimento das
outras vezes. O nosso modo de viver algo
isolado já não a confortava. Quando
decidiu partir para Moscovo não lhe perguntei
por quanto tempo desejava estar longe. Compreendi que
havia nela um grande atordoamento.  Estive diversos dias
sem vontade de falar, andava pelos altos prados das amendoeiras no
lugar onde contemplava o vale com ela.
Uma tarde estava sentado ao pé
da mesa onde ela deixara um vaso de rosas.
Estavam murchas agora e eu sentia o
rumor das pétalas que caíam sobre
a madeira, como ela me tinha ensinado
em Moscovo.















As pegadas que deixamos na terra,
o sol, o vento e a água
apagam-nas
e nós
procuramos sempre se sobra
um sinal ou uma sombra.
Depois de trinta anos é a minha mulher
em Moscovo que procura as palavras
escondidas entre a erva do prado
onde sopram os grãos
de poeira das plumas
que as flores
da chicória libertam ao morrer.


GUERRA, Tonino – Una foglia contro i fulmini. Santarcangelo di Romagna: Maggioli Editore, 2006, p. 9 – 13. [Tradução de Sandra Costa e revisão de Andrea Ragusa]


segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Traições VI - Parte II













[...] La meraviglia e l’emozione mi arrivano di colpo se mi trovo
davanti a costruzioni in rovina. Ho bisogno di sentire
la presenza di spessori, di incrostazioni create
dalla pioggia, dal sole e delle pietre che si
smarrivano, così capisco che la natura dà un suo
contributo fondamentale all’architettura regalando
l’impronta del tempo e della morte. I palazzi gotici e del
rinascimento così ben conservati chiedono soltanto la mia
ammirazione e invece i monumenti in rovina, oltre all’ammirazione
vogliono commozione e affetto per la loro agonia umana.
In più devo confessarvi che entrano nella memoria
le conversazioni silenziose con oggetti e
presenze mute. Quei colloqui segreti
che ci riempiono di verità nascoste.
Per queste mie voglie di borghi abbandonati
molto è dipeso anche da un orto che confinava
col cortile di casa mia in via Verdi. Quattro metri
di rete metallica prima della lunga capanna sbilenca dove
stava ammucchiato il carbone che mio padre vendeva pesandolo
con una bilancia appesa al soffitto. Oltre i quattro metri
di rete metallica c’era l’erba verde del campo Meloti,
chiuso sulla destra dall’orto della famiglia
Moroni. Allora c’era grande amicizia
tra me e Federico, il loro figlio più grande.
Quando pioveva stavamo nella sua stalla per sentire
che la pioggia batteva sulla foglia del fico e de galline lasciavano
orme sul terreno umido e facevano pensare a scritture
giapponesi. [...]

GUERRA, Tonino – Una foglia contro i fulmini. Santarcangelo di Romagna: Maggioli Editore, 2006, p. 9 – 13. 


[...] A maravilha e a emoção apoderam-se de mim de um golpe se me encontro
perante construções em ruína. Preciso de sentir
a presença das espessuras, das incrustações criadas
pela chuva, pelo sol e pelas pedras que se
extraviam, pois assim compreendo que a natureza dá um
contributo fundamental à arquitectura presenteando-a
com a marca do tempo e da morte. Os palácios góticos e do
renascimento tão bem conservados pedem apenas a minha
admiração enquanto  os monumentos em ruína, para além de admiração,
desejam comoção e afecto pela sua agonia humana.
Mais, devo confessar que se entranham na memória
as conversações silenciosas com objectos e
presenças mudas. Aqueles diálogos secretos
que se enchem de verdades escondidas.
Estes meus desejos por aldeias abandonadas
dependiam muito também de uma horta que confinava
com o pátio da minha casa na via Verdi. Quatro metros
de rede metálica antes da grande cabana desequilibrada onde
estava amontoado o carvão que o meu pai vendia pesando-o
com uma balança suspensa do tecto. Adiante dos quatro metros
de rede metálica ficava a erva verde do campo Meloti,
fechado sobre a direita da horta da família
Moroni. Naquele tempo existia uma grande amizade
entre mim e Federico, o filho deles mais velho.
Quando chovia encontrávamo-nos no seu curral para sentir
como a chuva batia sobre as folhas da figueira e as galinhas deixavam
pegadas sobre o terreno húmido e nos faziam pensar na caligrafia
japonesa. [...]


GUERRA, Tonino – Una foglia contro i fulmini. Santarcangelo di Romagna: Maggioli Editore, 2006, p. 9 – 13. [Tradução de Sandra Costa e revisão de Andrea Ragusa]