Norman Parkinson, The Iron Road,
1947
À
espera
Uma mulher espera
numa pequena estação, em pose cinematográfica. GWR, Great Western Railway, lê-se no banco sobre o qual se senta e cruza
as pernas como se aquele momento fosse apenas mais um retrato sobrevivente à
guerra. O casaco Aquascutum revela o
que encobre, um corpo em falso perfil, enquanto as mãos observam o silêncio,
suspenso na trajectória que o tempo percorre entre os pensamentos mais secretos
e as circunstâncias que teimas em imaginar.
Em primeiro plano,
aquilo que te parece um motociclo, com uma película turva que entorpece os
pormenores, e uma bicicleta junto aos anúncios e avisos que ninguém lê. Há
também uma janela, talvez em guilhotina, embora o ângulo não seja o melhor para
afirmares com certeza absoluta o atributo que, neste caso, a abertura não
revela.
Fixas, uma outra
vez, o olhar na cobertura que expõe a sombra sobre a mulher que espera na
pequena estação ou as sombras na fotografia a preto e branco e percepcionas que
ali mora um lugar sensível à luz, um lugar oblíquo que estabelece o contraste
entre o que escurece e o que clareia, entre frágeis certezas e as histórias
possíveis que só agora consegues capturar, um lugar sem nome, à espera.
Em fuga, quase num
ponto, mas em lenta composição, o comboio aproxima-se e o que é real, o que é o
amor, começa a quebrar-se.
[Sandra Costa]
Texto publicado no n.º 5 da Revista Flores do Verde Pinho da Escola Secundária de Vilela, número inteiramente dedicado à letra D.





