terça-feira, 11 de dezembro de 2018

Epigrafia #11

«Diremos apenas até amanhã,
como se o amanhã existisse no mesmo lugar, […]»

Jorge Pinho, 2015.

Há sempre um equívoco em cada despedida.

A antecipação da onda que reveste
a imobilidade dos lugares, dissipada esta bruma
melancólica que em mim apaga as tuas feições.

Uma estação em estado de esteio ou de janela.

O desprendimento da última folha da magnólia
sem a exaltação da espera, esse percurso
que foi a tua mão na minha.

Uma planície onde se precipitam os mortos.

A conjugação da luz num coração futuro,
pedaço de metal onde escondo o ofício
de ser teu.

Há sempre um começo antigo em cada despedida.

[Sandra Costa]

sexta-feira, 30 de novembro de 2018

Epigrafia #10


«O teu rosto torna as coisas simples, […]»

Egito Gonçalves, de "O Pêndulo Afectivo”
in Apeadeiro 1, 2001.

O rosto que sou quando termino
de percorrer o efeito de espelho
nas tuas mãos.

As fissuras que devolvo pela manhã
aos lugares intactos da tua ausência.

A respiração que me permito
na espessura vagarosa do primeiro
poema que um dia se cobrirá
com a tua voz.

Em vez do meu rosto, 
esse rosto que sou.

[Sandra Costa]

segunda-feira, 26 de novembro de 2018

Epigrafia #9 (Versão 2)


«[U]m raio fuzilou junto às janelas e vi no espelho (...) o meu rosto desdobrado, ardido, remoto: quem era?»
Herberto Hélder, Servidões, Lisboa, Assírio & Alvim.



As janelas da casa corrompem o silêncio
sob o qual todas as memórias oscilam
entre a incerteza de alguma vez terem existido
e a incredulidade quanto à fórmula como
subsistem na inclinação do sol sobre o horizonte,
esse erro que os dias incessantemente procuram
repetir. No lugar da penumbra, velhos papéis,
folhas soltas, sustêm a caligrafia da morte
e nenhum golpe de vento, maresia, raio oblíquo
penetrará nesta paisagem onde tudo é precipício.
Reatas o que se perdeu no fulgor que subsiste
em cada sombra ainda que só a imitação de um
espelho pela casa evite que o teu rosto desapareça. 

[Sandra Costa]

domingo, 25 de novembro de 2018

Epigrafia #9


«[U]m raio fuzilou junto às janelas e vi no espelho (...) o meu rosto desdobrado, ardido, remoto: quem era?»
Herberto Hélder, Servidões, Lisboa, Assírio & Alvim.



A janela da casa é toda uma composição
de espera. O travo da melancolia em cada
poro estalado da madeira. A entoação
das insónias na sujidade dos vidros. Sombras,
vigílias, noites que se extinguem, estendendo-se
sem sobressaltos, em cada grão de poeira
que se acumula entre os dedos,
em cada pressentimento que não surge.
Não existem espelhos, só paisagens.
Não é só o teu rosto que não reconheces.
Que vulto é aquele que se aproxima do precipício
que é cada palavra que arrefece nas tuas mãos?

[Sandra Costa]


Fotografia de JOSEPH CHARROY.

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

Epigrafia #8


«Numa entrevista antiga, a cantora Joanna Newsom conta que, durante a adolescência, costumava enfiar pedras nos bolsos para poder caminhar no fundo do rio. Em certas pessoas, no entanto, o peso do silêncio é tão grande, que, se mergulhassem nas águas, facilmente iriam ao fundo sem precisarem de pôr pedras na roupa ou de as coser nos bolsos, como teria feito Virginia Woolf.»
Alda Rodrigues, Notas do fundo do rio, in https://formadevida.org/, 2018.



Não me demoro nos dias
Assim principia o poema que não cheguei
a escrever. É outra forma de caminhar
no fundo do rio. De esquecer que não há esteios
que aguentem tanta falta de coincidência
entre as instruções que recebemos para
atravessar a rua e as ruínas que encontramos
em cada semáforo que não se acende. De extinguir
o que nunca existiu, ainda que pudesse acreditar,
em cima de um daqueles pequenos bancos da infância,
que a penumbra é uma haste sem madrugada.
De ignorar com o corpo a magnitude dos lugares
imperfeitos.

Não te demores nos dias. Contemplemos todos,
os poetas que salvaram o mundo
com menos um poema.

[Sandra Costa]

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

Desenho e Colagem

Joan Miró, Sem título (Desenho e colagem), Setembro de 1933.

Para a Ana Maria Guardado Dias.

O poema como desenho e colagem.
Os contornos do pintor que se pinta
a si próprio, a traço negro em fundo
escurecido e desbotado, com um braço
estendido perante a tela. Ou um falo
que se ergue perante uma escolha e
que em conversa entre iguais resulta
num caralho que pinta e pensa.

Dois recortes de postais de mulheres
colados sem displicência: uma a cores,
musa de oitocentos, na cabeça do artista;
outra a preto e branco, mulher moderna,
na ponta desse seu braço que assim
se retrata.

Por fim, a imperfeição do círculo
vermelho sobre o recorte rectangular
e rasgado da lixa. Estudiosos viram nisto
“a interpretação de Miró sobre a violenta
confrontação entre vários sistemas
de representação”, um alvo áspero
que nos prende a atenção, a pupila
do olho que se abre à percepção.
Outros, pela sua posição junto
ao pénis que se afigura, sugerem uma
vagina abstracta ou, diria eu,
como Eros pode ser dúbio,
sem títulos e sem fragmentações.

[Sandra Costa]

sábado, 25 de agosto de 2018

Epigrafia #7

Finisterra, Agosto de 2018.

«You should go
from place to place
recovering the poems
that have been written for you
to which you can affix your signature.»

Leonard Cohen, Book of longing,
Penguin, 2007.





Não imagino melhor intenção
para me precaver do inferno,
se me dedicasse a esses enleios,
do que ir de lugar em lugar
à procura dos poemas que não escrevi.

Os poemas da espera, nem um iniciado,
junto aos quadros de Holsøe, onde cada
uma daquelas mulheres aguarda o amor
ou a morte, como se ambas as estâncias
fossem o caule da mesma flor.

O poema para o último encontro
de Hellelil e Hildebrand nas escadas
da torre, momentos antes de todas
as histórias de cavaleiros e princesas
se desvanecerem em névoas e baladas.

Os poemas sobre os joelhos que não
esfolei na infância, uma vida inteira
a tentar evitar os segredos que se
adivinham na felicidade ou o medo
da catástrofe que sempre se lhe segue.

O poema sobre aquelas flores selvagens
e amarelas que crescem na berma da estrada,
também lá estavam em Finisterra pelo que
pergunto se será erva doce, e que aparecem
em tantas imagens que faço, fotográficas
e poéticas, mesmo sem as contemplar.

Não imagino melhor intenção
para me proteger da lonjura e do silêncio,
sei que um dia farei essa inevitável viagem,
do que ir de lugar em lugar
à procura dos poemas que não escrevi.

[Sandra Costa]