Quarta-feira, 16 de Maio de 2012

Untitled VII

Norman Parkinson, The Iron Road, 1947
À espera

Uma mulher espera numa pequena estação, em pose cinematográfica. GWR, Great Western Railway, lê-se no banco sobre o qual se senta e cruza as pernas como se aquele momento fosse apenas mais um retrato sobrevivente à guerra. O casaco Aquascutum revela o que encobre, um corpo em falso perfil, enquanto as mãos observam o silêncio, suspenso na trajectória que o tempo percorre entre os pensamentos mais secretos e as circunstâncias que teimas em imaginar.

Em primeiro plano, aquilo que te parece um motociclo, com uma película turva que entorpece os pormenores, e uma bicicleta junto aos anúncios e avisos que ninguém lê. Há também uma janela, talvez em guilhotina, embora o ângulo não seja o melhor para afirmares com certeza absoluta o atributo que, neste caso, a abertura não revela.

Fixas, uma outra vez, o olhar na cobertura que expõe a sombra sobre a mulher que espera na pequena estação ou as sombras na fotografia a preto e branco e percepcionas que ali mora um lugar sensível à luz, um lugar oblíquo que estabelece o contraste entre o que escurece e o que clareia, entre frágeis certezas e as histórias possíveis que só agora consegues capturar, um lugar sem nome, à espera.

Em fuga, quase num ponto, mas em lenta composição, o comboio aproxima-se e o que é real, o que é o amor, começa a quebrar-se.

[Sandra Costa]


Texto publicado no n.º 5 da Revista Flores do Verde Pinho da Escola Secundária de Vilela, número inteiramente dedicado à letra D.



Sábado, 28 de Abril de 2012

Manual da vida breve - IX


3.

Com uma ou outra palavra que só existe
entre a invisibilidade das últimas magnólias
e a sombra antiga das glicínias

crio a minha fronteira entre os dias

(há muros gastos onde sempre te agarras
para olhar as nuvens) 

[Sandra Costa]



Sábado, 14 de Abril de 2012

Polaroids - III

Polaroid de Andrei Tarkovsky. Daqui.

O ângulo retira da imagem o que está para além da melodia das coisas[1]. Fica a casa, outra casa onde o tempo também rasgou as paredes, o limoeiro carregado pelo aroma dos limões e um azulejo com a Virgem como se soubéssemos que a existência tem sempre necessidade de encontrar a primeira palavra para anunciar o sagrado. Não chove e a luz, rarefeita ainda quando passo, é a do mundo pela manhã.

Sandra Costa



[1] Do título da obra de Rainer Maria Rilke, Notas sobre a melodia das coisas (Averno, 2011).


[série de textos/poemas, chamem-lhe o que quiserem, que não foi escrita para as belíssimas polaroids de Tarkovsky]



Sábado, 31 de Março de 2012

Traições III



For many years, always in March,
I’ve felt sorry for these quiet
days and cloudy skies. The arrival
of the real spring has something
frightening in it. Everything
is suddenly new and strange - the doormat, unwashed windows,
willow buds, tufts of grass sticking up through the snow,
the starlings and the moon above the floodplain.
Everything is like a call, everything's tempting and luring you
out of the room, out of home, out of yourself, out of mind,
to flow over land and water, to go somewhere else,
to be somewhere else, somebody else,
and if you cannot then at least
to shout, to dance, to write,
to sing some stupid spring songs
in order to soothe this urge.
I can’t understand whether it’s in the blood or in the mind
or somewhere else. Maybe it’s the cellular memory
of my ancestors - fish, birds or peasants -
the memory of previous lives awakening in me
an urge to swim to flooded meadows to spawn
to look for a partner and a nesting place
to feel with a hand whether the soil is warm enough;
or something even more mysterious and archaic:
the understanding of a seed that it's time to sprout,
the thrill and fear of yet another death and birth. 

Jaan KaplinskiSelected Poems, Bloodaxe Books, 2011.


Durante muitos anos, sempre em Março,
senti pena destes dias tranquilos
e céus nublados. A chegada
da verdadeira Primavera tem algo
de assustador. Tudo
de súbito é novo e estranho - a esteira, as janelas sujas,
os botões do salgueiro, os tufos de erva a espreitar por entre a neve,
os estorninhos e a lua sobre a planície alagada.
Tudo é uma invocação, tudo é tentador e te atrai
para fora do quarto, fora de casa, fora de ti, fora do pensamento,
para fluir sobre a terra e a água, para ir para outro lugar,
para estar noutro lugar, ser outra pessoa,
e se não o conseguires pelo menos
gritar, dançar, escrever,
cantar algumas canções estúpidas de Primavera
a fim de acalmar esta ânsia.
Não consigo perceber se isto está no sangue se na mente
se noutro lugar. Talvez seja a memória celular
dos meus antepassados - peixes, pássaros ou camponeses -
a memória de vidas passadas a despertar em mim
uma ânsia de nadar até prados alagados para desovar
para encontrar um parceiro e um lugar para nidificar
para sentir com uma mão se a terra está suficientemente quente;
ou algo ainda mais misterioso e arcaico:
a percepção da semente na hora de germinar,
a emoção e o medo de outra morte e outro nascimento.

Tradução: Sandra Costa [2012].

Traições II


Only at dusk do eyes really begin to see.
The colours of flowers become lucid and bright
before night extinguishes them: carnations, yellow roses,
meadow-vetch and buttercups.
The wind has died down, and the sky
- the faded, nearly invisible
background of all our comings and goings -
is suddenly here, just above the treetops and pylons,
shining through foliage and above the roof of the house
in all its depth and blueness. Behind the outhouse
Venus appear; to the right of the pole of the well - Jupiter,
once two gods, now two stars.

................................................................................................



There is no God,
there is no director,
there is no conductor.
The world makes itself happen,
the play plays itself,
the orchestra plays itself.
And if the violin drops from somebody´s hand
and their heart stops beating
the man and his death never meet:
there´s nothing behind the glass;
the other side is nothing, is just a mirror
where my own fear regards me
with big eyes.
And behind this fear,
if only you look carefully enough,
there are grass and sunflowers
turning slowly by themselves towards the sun
without a God, a director, a conductor.



Jaan Kaplinski, Selected Poems, Bloodaxe Books, 2011.


Só quando anoitece os olhos realmente começam a ver.
As cores das flores tornam-se lúcidas e brilhantes
antes que a noite as extinga: cravos, rosas amarelas,
ervilhas-do-prado e botões-de-ouro.
O vento esmoreceu, e o céu
- o desbotado, quase invisível
fundo das nossas idas e vindas -
de repente está aqui, mesmo sobre a copa das árvores e dos postes,
brilhando através da folhagem e sobre o telhado da casa
em toda a sua profundidade e melancolia. Por trás do anexo
Vénus aparece; à direita do esteio do poço - Júpiter,
outrora dois deuses, agora duas estrelas.


................................................................................................




Não há um Deus,
não há um encenador,
não há um maestro.
O mundo acontece por si mesmo,
a peça encena-se a si mesma,
a orquestra toca por si mesma.
E se o violino cai da mão de alguém
e o seu coração pára de bater
o homem e a sua morte nunca se encontram:
nada há por trás do vidro,
o outro lado é nada, é apenas um espelho
onde o meu próprio medo olha para mim
com olhos grandes.
E por trás desse medo,
se olhares com o cuidado suficiente,
há relva e girassóis
que giram lentamente sobre si mesmos em direção ao sol
sem um Deus, um encenador, um maestro.


Tradução: Sandra Costa [2012]

Quarta-feira, 21 de Março de 2012

A vocação dos homens silenciosos III












O que quero dos regressos e dos poemas

é essa circunstância de serem fontes.



Sandra Costa, A vocação dos homens silenciosos, Cosmorama, 2006.

Domingo, 11 de Março de 2012

Manual da vida breve - VIII

Fotografia de Ana Teixeira


2.


Por detrás da casa onde cresci,
havia uma velha ameixoeira.

Quando os pássaros começam a cantar
entre os telhados, as ameixoeiras têm flores
muito juntas, muito brancas, que nunca
esqueço.

Consta que certas árvores dão frutos.


[Sandra Costa]