domingo, 9 de junho de 2019

Epigrafia #14

                                               [danielfaria.jpg]


«Precisava falar-te ao ouvido
De manter sobre a rodilha do silêncio
A escrita.
Precisava dos teus joelhos. Da tua porta aberta.
Da indigência. E da fadiga.
Da tua sombra sobre a minha sombra
E da tua casa
                                                                            E do chão.»
Daniel Faria

Sophia escreveu, após a tua morte, um verso
que podia ser teu: «se fosses flor através das estações»[1]
e nessa dupla possibilidade poética, ou no espaço
côncavo entre estas duas realidades que não existem,
estão todas as sombras «enrodilhadas de silêncio», 
todas as janelas que se abrem para as casas, todas 
as nuvens que trespassam a solidão.

Tantos anos após a tua morte, não sei escrever um
verso que podia ser teu. Sei que a poesia é a «sombra
da magnólia». Sei que sou mulher, mas não sou paisagem
onde as «árvores irradiam cheias de rebentos» nem onde
os homens procuram rastos e explicações. Sei que «precisava
falar-te ao ouvido», como se algum dia tivesse ousado
escrever boletins meteorológicos, apenas para repetir o que
já sabes: o amor é «uma candeia acesa» que só para alguns
ilumina os joelhos, esse mar alto onde os barcos param
a dedilhar a ternura e o desejo.

Vinte anos após a tua morte, o amor é este poema
que te escrevo e lhe escrevo, permitindo que aqui entre
a «água corrente» e impura onde outro homem se inclina
para lavar o rosto, um poema em redor de uma porta
fechada por onde trepam, selvagens, as flores que
atravessam as estações.




[1] Sophia de Mello Breyner Andresen in Daniel Faria, 'Legenda para Uma Casa Habitada', org. Vera Vouga e Nuno Higino, Paróquia de Santa Marinha de Fornos, Marco de Canaveses, 2000.
[2] Restantes versos citados são da autoria de Daniel Faria.

[Sandra Costa]

domingo, 12 de maio de 2019

Epigrafia #11 Versão 2.0

«Diremos apenas até amanhã,
como se o amanhã existisse no mesmo lugar, […]»

Jorge Pinho, 2015.

Há sempre um equívoco em cada despedida.

A ondulação do mar que sempre procuro na 
imobilidade dos lugares, dissipada a bruma 
melancólica que em mim apaga as tuas feições.

Uma estação em estado de esteio ou de janela.

A exaltação da espera no desprendimento 
da última folha da magnólia, esse percurso
ininterrupto que foi a tua mão na minha.

Uma planície onde se precipita a morte.

A conjugação da luz num coração futuro,
pedaço de metal pedaço de poesia onde 
escondo o ofício sincopado de permanecer tua.

«O amanhã não existe no mesmo lugar»:
há sempre um começo antigo em cada despedida.

[Sandra Costa]

quinta-feira, 25 de abril de 2019

Epigrafia #13

«Por amor de um verso têm que se ver muitas cidades, homens e coisas, têm que se conhecer os animais, tem que se sentir como as aves voam e que se saber o gesto com que as flores se abrem pela manhã.»
Rainer Maria Rilke, 'Os Cadernos de Malte Laurids Brigge', versão portuguesa de Paulo Quintela, Coimbra, 1955.

«Por amor de um verso» uma madrugada
de Abril se fez flor, se fez vento, se fez musgo
agarrado aos nossos gestos. Por amor desse
mesmo verso, vamos pela vida à sombra dos dias
que amanhecem claros e quase insones mesmo
quando a meteorologia se cumpre em chuva e em
poemas que não resistirão ao derrame do tempo
sobre as palavras. Por amor deste verso que se
desdobra em estilhaços que não matam, em asfalto
que não queima sempre que escrevo descalça, em
máscaras que já nada escondem porque o único
espelho que resta em qualquer lugar onde esteja
é o do meu rosto quando penso em ti, dou por
mim a escrever-te um verso de amor quando
queria apenas escrever Abril.

[Sandra Costa]

sexta-feira, 1 de março de 2019

«Untitled»



Sandra Costa, UNTITLED, volta d' mar, 2017 [Fotografia de volta d'mar]

Sobre «Untitled» III

Nenhuma descrição de foto disponível.
Herbert List, Lemonade Stand (Capri), 1932.

Apodera-se de ti o ofício do Verão.

Enquanto houver limões sobre a bancada
de madeira, água e açúcar para manter
o equilíbrio entre o que vês e o que escreves,
e uma colher para que um leve tinido
tudo trespasse de mar e melancolia,
deixarás por aqui um rasto a margens
e a tardias esperas.

Crês que a ilha também pode ser um lugar
onde as histórias de amor
se apresentam em segundo plano.

Sandra Costa, «untitled», volta d' mar, 2017.


‘UNTITLED’ de Sandra Costa
ou “esse inaudível som da melancolia” | Elisa Costa Pinto

Este livro admirável reúne 24 poemas inspirados em outras tantas fotografias de autor identificado, a preto e branco. Num processo há muito utilizado por outros poetas que escolheram a fotografia, mas também a pintura, a escultura, a música… como ponto de partida para a sua escrita, Sandra Costa colhe a inspiração em belíssimas imagens que, ao invés de se constituírem como retratos do real, correspondem a instantes inscritos no tempo, cortes sincrónicos numa encenação mais sugestiva do que reveladora, sublinhada pela distanciação dada pela ausência da cor.
Num multiplicado jogo de representação – a escrita sobre uma outra escrita -, Sandra Costa colecciona as fotografias, “sedimentos de uma vã imortalidade” e tece a sua poesia, como se o tempo fixado em cada imagem que sobreviveu à catástrofe da efemeridade pudesse ser recuperado pela palavra poética. Instaura, desta forma, uma nova existência dos momentos resgatados, numa paciente e melancólica captura de signos vitais - humanos e vegetais - suspensos em cenografias depuradas, nas quais a marca humana se desenha, delicadamente, no olhar estendido pela rua, insinuado através da janela, indagador de ocultações.
É todo um mundo elemental, ora reduzido por esse olhar, ora expandido pelo pensamento, aquele que se ergue em cada poema.
“Constrói o poema como se esta pudesse ser uma / outra estrada, um outro rio” é o programa inaugural deste livro raro, reunificador de desenhos da memória e de geometrias da “luz do dia” e da “luz dos objectos quotidianos”, de sombras e de penumbras, de “folhas mortas dos plátanos”, “o último eflúvio da flor”, o “ramo da cerejeira suspenso”, a “maçã no parapeito da janela”, os “limões sobre a bancada”.
Ora, é justamente este ofício de recolha e captura das pequenas coisas que apazigua a solidão, o medo, a espera, a frágil ruína de um mundo onde os vestígios da guerra se insinuam, imperceptíveis. E porque “as sombras estão dispostas / como se não fossem sombras mas apenas / o tempo que resta quando entre a palavra / e o esquecimento se instala a penumbra / ou a solidão”, só o poema, perscrutador e atento à respiração e ao gesto oculto, resolve o mistério do mundo.
É esta a iluminação que vibra na belíssima poesia de Sandra Costa, um fio de voz indagador e musical, um “inaudível som de melancolia”.
[SANDRA COSTA, ‘UNTITLED’, ed. Volta d’mar, 2017]

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

Auto-retrato



Era pelas palavras que ela se revelava
mas era também a escrita que lhe concedia
um esconderijo: cada poema era um espelho
e um muro.

Em cada diálogo anunciava-se um encontro
possível, mas o rosto que a definia
não era madrugada nem horizonte pelo que
o coração lhe pulsava como um túmulo
onde a solidão ia ocupando 
o seu lugar.

Cada verso escrito era, assim, um pátio
e um exílio: cobria-se de uma camada
de silêncio cada vez maior até que
um dia restará apenas, sobre a mesa
onde só ela se sentava junto ao mar,
essa película tão sensível quanto inerte
que, afinal, era a sua pele.

[Sandra Costa]

terça-feira, 8 de janeiro de 2019

Sobre «Untitled» II

Josef Sudek, The Window of My Studio [series], 1940-1954.
.

A janela do estúdio está aberta. Por um instante,
aqueles dois mundos desviam-se do reflexo
que um é do outro e conectam-se. Definem-se,
dissolvendo-se. Não há interior e exterior.
Um plano onde a chuva escorre e outro onde
o ar é condensação. Não há o homem e um duplo
que se contempla, essa árvore de torso retorcido,
defeituoso, que o tempo, só por milagre, cura
quando floresce a Primavera.

As vidraças nada separam, nada aproximam.
Dois mundos, as estações que se sucedem,
o dia e a noite afectados pela luz interior e exterior,
o que é inteiramente abstracto à superfície
e delicadamente lírico, emotivo, quase espiritual,
no olhar que se prolonga.

Por tudo isto, são pormenores o muro e as casas
para além do jardim ou a composição de natureza
morta no parapeito de madeira. O que importa
é a janela do estúdio, que está aberta, e como
a indeterminação, esse movimento que o
mundo respira, ali se revela.

Sandra Costa, «untitled», volta d' mar, 2017.


Sandra Costa (n. 1971), in Untitled. A estreia em 2002, com Sob a Luz do Mar (Campo das Letras), revelou uma voz transparente, contida, depurada. Untitled (volta d’mar, Dezembro de 2017) persegue os caminhos da luz, desta feita em diálogo com fotografias a preto e branco de autores diversos (Elliott Erwitt, André Kertész, Vivian Maier, Dorothea Lange…) A écfrase processa-se a partir de uma complexa ralação de olhares, o do autor da fotografia e o da poeta que a contempla. O poema surge desta relação como uma imagem no decorrer do processo de revelação, da indefinição nublada e sombria das formas até à sua absoluta definição. O título do primeiro livro já havia assumido a relevância da luz nesta poesia, agora novamente sublinhada por uma noção do poema enquanto reflexo. Mantendo-se a natureza no lugar da paisagem preferencial, ela surge enquadrada por uma contemplação afectada pelo silêncio e pela solidão. Os jogos de luz permitem-nos ainda vislumbrar em alguns versos um tom nostálgico que resiste à melancolia, inclinando-se mais para uma noção de espera onde podemos adivinhar certa forma de fé na beleza: «Nesse instante, compreendes: o único caminho / possível até à madrugada insubmissa / também se faz de esperas, // ou de um detalhe que nos salva» (p. 18). Também por isto, podemos dizer que esta é uma poesia que aparece em contramão com as tendências dominantes do seu tempo. [Henrique Manuel Bento Fialho, no blogue Antologia do Esquecimento]