domingo, 15 de abril de 2018

Traições XI

The Rider

Some believe the end will come
in the form of a mathematical equation.
Others believe it will descend as a shining horse.
I calculate the probabilities to be even at fifty percent.
Either a thing will happen or it won't.
I open a window,
I unmake the bed.
Somehow, I am moving closer to the equation
or to the horse with everything I do.
Death comes in the form of a horse
covered in shining equations.
There will be no further clues, I see.
I begin to read my horse.
The equations are drawn in the shapes of horses:
horses covered in equations.
I am tempted to hook an ankle
around the world as I ride away.
For I am about to ride far beyond
the low prairie of beginnings and endings.


Sarah MangusoThe Captain Lands in Paradise, 2002.



O Cavaleiro

Alguns acreditam que o fim virá
sob a forma de uma equação matemática.
Outros acreditam que descerá como um cavalo cintilante.
Calculo que as probabilidades serão iguais em cinquenta por cento.
Ou uma coisa acontecerá ou não.
Abro uma janela,
desfaço a cama.
De algum modo, aproximo-me da equação
ou do cavalo com tudo aquilo que faço.
A morte vem em forma de um cavalo
envolto em equações cintilantes.
Não haverá mais indícios, pressinto.
Começo a ler o meu cavalo.
As equações estão inscritas nas formas dos cavalos:
cavalos envoltos em equações.
Estou tentado em enganchar um tornozelo
em torno do mundo enquanto cavalgo para longe.
Porque estou prestes a cavalgar muito para além
da planície lisa dos começos e dos fins.


[Tradução de Sandra Costa, 2005]

Traições IX

Edward HopperCorn Hill (Truro, Cape Cod), 1930

The Dunes in Truro

A girl walks up the dunes with the aid of a cane, trying not to get sand in her heart. All around her, very beautifully, houses fall in the ocean and disappear. At least one thing is being prevented. The creeping mountains reconstitute. They are moving in some direction. It is like surfing, but very slowly. William Harvey discovered the circulatory system in 1616. It must therefore be concluded, he wrote, that the blood in the animal body moves around in a circle continously, and that the action of function of the heart is to accomplish this by pumping. This is the only reason for the motion and beat of the heart.

Sarah MangusoThe Captain Lands in Paradise, 2002.



As Dunas em Truro

Uma rapariga caminha sobre as dunas com a ajuda de uma cana, tentando que não lhe entre areia no coração. À sua volta, de forma muito bela, as casas caem no oceano e desaparecem. Pelo menos algo está a ser prevenido. A reconstituição das montanhas rastejantes. Elas movem-se nalguma direcção. É como surfar, mas muito lentamente. William Harvey descobriu o sistema circulatório em 1616. Deve-se assim concluir, escreveu, que o sangue no corpo do animal movimenta-se continuamente em círculo e que a função da acção do coração é conseguir isto, bombeando. Esta é a única razão para o movimento e o bater do coração.


[Tradução de Sandra Costa, 2005]


Traições VIII

Address to an Absent Lover

The boy speaks in Russian (I understand him neither in the dream nor in real life). He opens his eyes and looks at me, apologizing in English for keeping them closed. 
When I wake up I think he must have seen me. But when I kiss him he looks surprised, as if he were blind. 
The night I met you I wrote It is possible I have imagined my entire life.

Sarah Manguso 



Para um Amante Ausente

O rapaz fala em russo (nem no sonho nem na vida real o compreendo). Ele abre os olhos e olha para mim, pedindo desculpa em inglês por mantê-los fechados.
Quando acordo penso que ele me deve ter visto. Mas quando o beijo ele mostra-se surpreendido, como se fosse cego.
Na noite em que te encontrei escrevi É possível que tenha imaginado toda a minha vida.


[Tradução de Sandra Costa, 2005]


sexta-feira, 6 de abril de 2018

Epigrafia #4

Carl Vilhelm Holsøe

Penélope

«Desfaço durante a noite o meu caminho.
Tudo quanto teci não é verdade,
Mas tempo, para ocupar o tempo morto,
E cada dia me afasto e cada noite me aproximo.»

Sophia de Mello Breyner, Coral

Junto à luz tardia da janela, esperas.
Não és Penélope nem Helena.
Não teces verdades nem mentiras,
não vagueias nem te deitas,
não te espantas nem esqueces.

Junto a essa janela, pousas o cotovelo
no parapeito da tarde que tudo cobre e esperas.
E o que se afasta é o que se aproxima.
O que regressa é o que ecoa.
O que se deslassa é o que corrói.

Junto às sombras que são agora a janela,
o teu olhar, por fim, espera.
Nem Ulisses, nem Páris.
Nem o amor, nem o desejo.
Nem o silêncio, nem um poema.

Apenas o instante em que um coração
imóvel deixa de bater por ti.

[Sandra Costa]

quarta-feira, 7 de março de 2018

Epigrafia #3

«Se for preciso, irei buscar um sol
para falar de nós:
ao ponto mais longínquo
do verso mais remoto que te fiz»

Ana Luísa Amaral, Imagias, Gótica, 2002.

Não sei qual é o verso mais remoto que te fiz.
O amor não se compadece com tempos
verbais, não conjuga apenas possibilidades,
não se remata em versos perfeitos. Prefiro
escrever que talvez as palavras tenham
uma memória quântica, assim fragmentada
em constante universal, que não se designa
nas superfícies rugosas dos poemas
mas que sempre se propaga na matéria
com que o meu corpo dobra o teu
silêncio.

[Sandra Costa]

quinta-feira, 1 de março de 2018

A vocação dos homens silenciosos V












Sandra Costa, 
A vocação dos homens silenciosos, Cosmorama, 2006.



Baudelaire não mora aqui
[texto publicado no blogue Da Literatura, a 2 de Março de 2007]
João Paulo Sousa
  
            Durante algum tempo, Sandra Costa foi uma das autoras do Tempo Dual. Depois, abandonou a blogosfera e só reapareceu uma vez, aqui mesmo, no Da Literatura, com a excelente tradução de um poema de Joseph Brodsky. No final do ano transacto, regressou à edição em livro, com o volume de poesia A Vocação dos Homens Silenciosos, lançado pela Cosmorama. Refira-se, de passagem, o notável trabalho que a editora de José Rui Teixeira tem vindo a realizar neste domínio, com uma colecção criteriosa, de elevado apuro gráfico, que se lançou corajosamente na busca dos seus próprios canais de distribuição. (...)
            Em A Vocação dos Homens Silenciosos, Sandra Costa estrutura um conjunto poético onde o sujeito se apresenta em estado de empatia com o mundo, procurando traçar afinidades entre as palavras e os objectos que permitam alcançar o apaziguamento. Não há aqui a tensão abstractizante que conduz ao hermetismo, nem o desencanto de raiz baudelairiana que se move pela superfície das ruínas urbanas, mas é antes como sombra a caminho do apagamento que se expõe esta voz poética. Assim, o sujeito assume a consciência de ter chegado demasiado tarde e de apenas lhe restar o lento declínio, a suave fusão com a natureza (aqui entendida como clara metonímia do mundo): «sou como um desses caules dos pântanos: / apenas mais uma linha retorcida sobre / o transtorno das águas, quando o sol se põe // – um gesto de elisão ou nostalgia / eu a menos / e a imagem permanecerá igual –» (p. 24).

            A poesia é vista como um meio de acesso privilegiado a esse contacto profundo com as coisas, ela representa a possibilidade de se conhecer um real que é anterior ao acto de nomeação. Nesse contexto, o silêncio prefigura-se como um horizonte intangível, mas capaz de guiar o sujeito poético: «Não temo aproximar-me do limite, / dessa transparência onde os deuses / assistem à queda dos graves e quase / se magoam por não terem os pés / sobre a terra ou daquilo que chamas / inclinação para a angústia como / se fosse coincidência esta pressa / de tudo classificares. Não temo / ainda que seja evidente que uso / as palavras por antecipação» (p. 29).



terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

«Untitled» - volta d´mar





Livro novo: «Untitled», editado pela volta d'mar. A apresentação decorreu no dia 18 de Fevereiro de 2018, na In-Libris, com a participação do João Paulo Sousa e do «disco voador» e na companhia de muitos amigos.

Encomendas para voltadmar@gmail.com ou numa livraria (de poesia) perto de si.