sábado, 7 de setembro de 2013

Nenhuma Flor - I


Repercutem os nomes abatidos
a luz atravessada do avesso
as películas que ficam do absoluto dos poemas
o ofício da vigília dentro do sono mais profundo

- designações trémulas do sagrado
ou um par de asas a corromper o silêncio –

Sandra Costa (poemas), Paulo Gaspar Ferreira (fotografias). Nenhuma flor. Oito imagens e o dizer dos lábios. In-libris, 2004.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Manual da vida breve XII

15.


Sobre a ponta do cavaleiro, ergue-se o farol
cuja torre se encontra do lado de terra
e a entrada está virada para o mar, como se
adivinhasse o construtor a vertigem que se
acende e se apaga naquele ofício onde quase
tudo se assemelha à solidão e que a cada três
sinais de luz branca de novo a morte se afasta
mas regressa como as constelações quando
o céu se dissipa de sombras.

[Sandra Costa]


sábado, 17 de agosto de 2013

Manual da Vida Breve - XI



14.


Para o Vítor.

Na alameda dos plátanos, em 1925 descrita
como a avenida directa ao mar, ergue-se a Vila Gladys
com o seu tom rosa embaçado, os muros bordejados
a branco e da mesma cor todos os lugares que
ali servem de cadência e de passagem: o portão tripartido,
os frisos neoclássicos das varandas e as portadas de
madeira das janelas.

Quem por ali passa nada sabe da história daquela
casa – se o salão de bilhar no rés-do-chão ainda existe,
quantas vezes Gladys se terá recordado do som do
seu violino sob a luz dedilhada da araucária, porque
terão sido cortadas as antigas palmeiras do jardim
da entrada e que (des)amores ainda poderão ser
colhidos na luz nocturna do lago.

Por último, muitos anos depois deste poema, restará
apenas o que ficou inscrito no tronco dos plátanos
como uma memória de infância: um vislumbre
da Riviera na penumbra da luz de Verão de Francelos
e que em Setembro, antecipando regressos, enrolavas
uma vez mais como se tudo aquilo fosse somente
uma planta de arquitectura.

[Sandra Costa]


terça-feira, 26 de março de 2013

Still Life #4













René Groebli, da série «The Eye of Love», 1953


Still Life #4


Num hotel barato de Paris, o que resta
do amor é uma composição imóvel
onde cada elemento deixado ao abandono
- o último eflúvio da rosa, o rumor rubro
do vinho, a sombra táctil do cigarro -
explica como o tempo, quando perto
do coração, se materializa numa oração
desprovida de significados mas onde cabe
a luz suficiente dos objectos mais quotidianos.

[Sandra Costa]

Still Life #3

















Kristoffer Albrecht, 1986



Still Life #3

A maçã no parapeito da janela, com as folhas
que ainda há pouco morriam na árvore dobradas
sobre o silêncio perplexo da espera, é a demonstração
de que o rigor do Inverno nem sempre encontra
a casa como se esta fosse uma ilha. Por vezes,
a respiração das sombras, no percurso entre
dois sintomas da fragilidade do mundo, deixa
que nas vidraças se forme uma clareira e por ali
se pressintam outros medos outras pausas
para além da constelação de gelo que tudo 
cobre, impotente como um pálio.

[Sandra Costa]

sábado, 23 de março de 2013

Still Life #2


















Kristoffer Albrecht, 2009



Still Life #2

Enquanto durar o poema, no gargalo
da garrafa a Primavera permanece intacta.
O ramo da cerejeira suspenso num
desfiladeiro de vidro cria duas margens
de água mas ali não há milagres e a
transparência que resiste dobrar-se-á
em breve num lugar estagnado,
talvez sagrado, onde a natureza morre
e um poema acaba.

[Sandra Costa]

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Still Life #1

Misha Burlatsky, Balance

Still Life #1

O elemento que sobressai é o equilíbrio.
E no entanto, as sombras estão dispostas
como se não fossem sombras mas apenas
o tempo que resta quando entre a palavra
e o esquecimento se instala a penumbra
ou a solidão. Quanto à mesa de madeira,
quase perfeita, é um lugar ligeiramente
à esquerda para que da inclinação da flor
sobrasse uma margem de inquietude sobre
essa vida que não existe.

[Sandra Costa]