segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Epigrafia #1

«Consegues ouvir o mar?» perguntou James.
«Esse era o verso de Shakespeare de que Keats mais gostava.»

Iris Murdock, O Mar, O Mar, Relógio d'Água, 2005, p. 449.

Esta é a casa que procuro,

depois de cada estação, entre
as substâncias perenes onde fica
guardado tudo o que é cedo,
sempre que um pormenor tarda em
reinventar a realidade.

Não haverá melhor verso
que identifique esse lugar

onde um dia a vida se assemelha
a este silêncio.

[Sandra Costa]

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Traições V

Two Figures In Dense Violet Night

I had as lief be embraced by the porter at the hotel
As to get no more from the moonlight
Than your moist hand.

Be the voice of night and Florida in my ear.
Use dusky words and dusky images.
Darken your speech.

Speak, even, as if I did not hear you speaking,
But spoke for you perfectly in my thoughts,
Conceiving words,

As the night conceives the sea-sounds in silence,
And out of their droning sibilants makes
A serenade.

Say, puerile, that the buzzards crouch on the ridge-pole
And sleep with one eye watching the stars fall
Below Key West.

Say that the palms are clear in a total blue,
Are clear and are obscure; that it is night;
That the moon shines.

Wallace Stevens, de Harmonium | 1923



Duas figuras numa densa noite violeta 

Tanto me agradava ser abraçado pelo porteiro no hotel
Como nada mais conseguir do luar
Do que a tua mão húmida.

Sê a voz da noite e Florida no meu ouvido.
Usa palavras sombrias e imagens sombrias.
Escurece o teu discurso.

Fala, ainda, como se eu não te tivesse ouvido falar,
Mas te falasse perfeitamente nos meus pensamentos,
Concebendo palavras,

Como a noite concebe os sons do mar em silêncio,
E dos seus zumbidos sibilantes faz
Uma serenata.

Diz, pueril, que os bútios se inclinam sobre as vigas do telhado
E dorme com um olho observando a queda das estrelas
Abaixo de Key West.

Diz que as palmeiras são claras num azul absoluto,
São claras e são obscuras; que é noite;
Que a lua brilha.



Tradução: Sandra Costa (2005)


domingo, 7 de agosto de 2016

Manual da Vida Breve XXIII

25.


Mantém intacto o cansaço.
Não procures o navio que partiu
na espuma que agita as palavras.
Pratica a hesitação, essa forma
de respirar que suspende a eternidade,
sobretudo quando a paisagem
deixou de ser começo,
tornando-se fragmento.

[Sandra Costa]

segunda-feira, 4 de julho de 2016

Manual da Vida Breve XXII

23.
«Se eu escrevesse, […], não haveria na minha escrita
o mais pequeno vestígio de nostalgia.»

João Paulo Sousa, O rosto de Eurídice, Teodolito, 2016.

Se eu escrevesse, as sebes continuariam
a cercar os terrenos aráveis contra a invasão
das tempestades e os estragos não deixariam
de se sentir na quantidade de voos que os
estorninhos fariam pousar sobre o que
além resta da sombra e da luz.

Se eu escrevesse, a morte continuaria
necessária, sem promessas, sem regressos
e os poemas demorariam apenas um
instante, permanecendo as palavras
mas não os significados,

para que aqui não reste
o mais pequeno vestígio de nostalgia.

[Sandra Costa]

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Poema de Natal | Dezembro de 2015


Poema de Natal

DEFESA DE PETER HUCHEL OU CRITÉRIO

Também ao verso é vedado
ser mais leve
que o seu peso

Reiner Kunze, Poemas,
Paisagem Editora, 1984 (Tradução de Luz Videira e Renato Correia).


O critério com que inicias o poema
é o mesmo que se demora nas sombras
magoadas de Dezembro: um sopro rasga
a pulsação do mundo e o que se desfaz
entre os teus dedos é a lenta composição
de uma luz indeterminada que não se cansa
de ser matéria casual mas que, como tudo
o que é errância, jamais se poderá ver. 

[Sandra Costa]

domingo, 12 de abril de 2015

Manual da Vida Breve XXI

23.

«Nunca escrevi um poema sobre a morte».
Eis como um verso começa um poema
entre dois sonhos, um real e outro imaginado,
e depois se revela uma casa vazia onde só
o rasto difuso de uma tempestade que nunca
existiu te devolve a certeza de que no fim,
como no começo, o que nos abandona
é essa ilusão de que um dia caminhamos
no dorso do mundo.

[Sandra Costa]

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Manual da Vida Breve XX (Versão em italiano)

22.



E il terzo giorno sulla terraferma
ove l'erbe e le piante darebbero sementi
e gli alberi sarebbero più prossimi ai frutti,
è successo che han potato la magnolia
della mia via e la strada si è ricoperta della
fioritura que non è giunta a illuminare i giorni.

È passata la mattinata ed è giunto il pomeriggio
e un passero si è posato su uno dei pochi 
rami rimasti ad aprire il chiarore
dinanzi al silenzio, intessendo così
la poesia sul retro della creazione.

E certi uomini hanno creduto che tutto ciò
fosse una cosa bella.

[Tradução de Andrea Ragusa, colaborador do blogue Poesia & Lda.]