segunda-feira, 31 de julho de 2017

Exercício #3

Nada se alterara na ordem natural das coisas. Se desviasse o olhar, continuaria a medir o Verão pela altura do milho; no fundo de um dos seus bolsos encontraria, com toda a certeza, o peso de uma âncora no contorno das chaves de casa e fosse qual fosse o lugar em que voltasse a pousar o olhar, ainda que fosse no rumor que imaginara na mão dele, as articulações dos seus dedos já se teriam esquecido de como se sustém a respiração.

Alguém descreveria o processo como uma ilusão de óptica. Ela escreveria mais tarde que julgara criar um hiato na melancolia.

[Sandra Costa]

sábado, 29 de julho de 2017

Exercício #2

Ele sentira-o como se não tivesse acontecido, como mais um pormenor de ausência a acrescentar àquela sucessão de reflexos e palavras que lhe marejavam os olhos e a boca de forma quase mecânica e que faziam daquela tarde de Verão uma inevitável demonstração da sua capacidade de viver como um animal em extinção.
Porém, como um sinal, a sua mão pendia agora sobre a mesa do café e na base do pulso, na artéria radial, sentia que algo em si, para além do sangue, pulsava em desordem.

[Sandra Costa]

Exercício #1

O toque dos dedos dela na mão dele fora tão breve, e assim intenso, quanto uma possibilidade.
O mundo continuara, a conversa prosseguira sobre a dimensão filosófica do amor (as geografias e os medos de quem escreve para uma imagem que já se desfaz) e tudo à volta permanecera intacto na sua existência.
Mas na epiderme, nesse filtro, limite, que nos separa do outro ao mesmo tempo que nos faz resvalar de um corpo até outro corpo, os dedos dela continuavam a tocar a mão dele, ardentes, assim intensos, como uma possibilidade.

[Sandra Costa]

segunda-feira, 1 de maio de 2017

Epigrafia #2

     Fotografia de Ekaterina Belitskaya

«explica-me este verso
pedias
como se a luz
pudesse
permanecer intacta
sobre a tua mão.»

Ana Paula Inácio, Anónimos do séc. XXI, Averno, 2016, p. 45.


Não expliques nenhum verso.
Peço-te.

Deixa que a luz tombe
sobre as janelas quase abandonadas
da varanda

e que as sombras de ferro forjado
que perduram nas cortinas
mesmo anoitecendo

sejam a única coisa intacta
no interior do poema.

[Sandra Costa]

quinta-feira, 6 de abril de 2017

Nada se sabe das profundezas


NADA SE SABE DAS PROFUNDEZAS
(primeiro estudo para uma duplicidade)



#1

À superfície do mundo
a ondulação do desejo:

uma pedra - o amor - submersa.

#2
pode o poema permanecer
em círculo      água em movimento
e sempre insuficientes as pálpebras
susterem o silêncio?

#3
talvez esta seja a textura dos dias
que se aproximam das profundezas:
a agitação sob a luz nada revela
e criam-se estratificações nebulosas
junto ao olhar como se a inquietude
- a água - fosse o único ritual
capaz de criar o mundo.

#4
[quero] toda a poesia é assim:
um lugar onde a superfície
esconde mais do que revela
e a morte é a pedra possível dentro da água
ao alcance do braço se nada se sabe das profundezas


[Sandra Costa]

(texto integral de um livrinho de 8x5,5 cm, com projecto gráfico e fotografias de Paulo Gaspar Ferreira e editado pela in-libris, em 2003)


quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Traições VII

COLD IN HAND BLUES

y qué es lo que vas a decir
voy a decir solamente algo
y qué es lo que vas a hacer
voy a ocultarme en el lenguaje
y porqué
tengo miedo

PIZARNIK, Alejandra – El Infierno Musical. 1971.


COLD IN HAND BLUES

e o que vais dizer
vou dizer somente algo
e o que vais fazer
vou ocultar-me na linguagem
e porquê
tenho medo


PIZARNIK, Alejandra – El Infierno Musical. 1971.


[Tradução de Sandra Costa]




sábado, 24 de dezembro de 2016

Poema de Natal | Dezembro de 2016


Poema de Natal

Lc, 2, 15 «Vamos até Belém e vejamos esta palavra que aconteceu»

Bíblia, Novo Testamento, Os Quatro Evangelhos, Vol. I. Lisboa: Quetzal, 2016 (Tradução de Frederico Lourenço).


Aconteceu que, nos quatro Evangelhos,
apenas no de Lucas a criança anunciada
nasce na manjedoura, guardada por pastores
e um anjo, para ser um sinal recusado,
e nem é certo que assim tenha acontecido.

Aconteceu que, para que se cumprisse a profecia,
é Mateus que enuncia os Magos que ali vieram
atrás do astro do Oriente,
e nem é certo que sejam três, só porque ofereceram
ouro, incenso e mirra.

Aconteceu que, talvez tendo sido o primeiro,
Marcos ignora como tudo começou,
falando de veredas, da água do Jordão e de erros,
e nem é certo que a boa nova seja o princípio
deste evangelho.

Aconteceu que, dos quatro evangelistas,
João é o único que convoca no princípio
a palavra, o verbo na versão que todos conhecemos,
e nem é certo qual seria a sua intenção,

e por tudo isto creio num poema
onde a luz brilha na escuridão.

Dezembro de 2016

[Sandra Costa]



Nota: Poema que abusa das palavras de Frederico Lourenço na sua tradução dos Quatros Evangelhos.